Vizinho Infernal: Quando a comédia romântica flerta com a romantasia | LIVROS

Vizinho Infernal

Então que eu li Vizinho Infernal! O primeiro livro lançado no Brasil da autora Myriam M. Lejardi tem o selo da editora Alt e não é exatamente aquilo que a embalagem (belíssima, diga-se de passagem) promete. Vendido dentro do escopo da romantasia, o livro se sustenta mais como uma comédia romântica com algumas pitadinhas de fantasia do que um romance com fantasia propriamente dita. E talvez seja justamente aí que mora tanto o seu charme como suas limitações.

Milena, Bel e um contrato invisível de oposição

Vizinho Infernal começa quando Milena, uma advogada pragmática, racional e avessa a qualquer tipo de exagero, se convence de que seu novo vizinho inconveniente é, na verdade, um demônio. A narrativa já se inicia com a protagonista tentando provar sua teoria para a colega de apartamento, quase como se estivesse elaborando uma petição judicial, disposta a apresentar artigos e provas de que Bel não pode ser humano.

Bel, o vizinho em questão, encarna o oposto absoluto da vida organizada de Milena. Ele é inconsequente, barulhento, lascivo, incapaz de compreender o que é socialmente aceitável. Tem um “corpo esculpido à perfeição” (segundo palavras da própria Milena) e uma agenda social muito agitada, incluindo festas intermináveis e orgias nem um pouco discretas. O contraste entre os Bel e Milena é tão grande que chega a ser caricato.

Essa dualidade é o motor da narrativa, estando presente inclusive na sexualidade dos protagonistas, já que ambos são bissexuais. Milena se incomoda com absolutamente tudo e Bel não se incomoda com absolutamente nada. O que poderia ser apenas um embate de vizinhos se transforma em obsessão e, eventualmente, em cumplicidade.

Vizinho Infernal tem ótimos coadjuvantes

Vizinho Infernal tem uma escrita fluida e uma história que prende, o que resulta em uma leitura rápida, principalmente se levarmos em consideração que é um livro de mais de 400 páginas. Mas, apesar disso, confesso que não fui totalmente fisgada. Milena e Bel cumprem perfeitamente o enemies to lovers como contrários entre si, mas o apego emocional não veio.

De início, nenhum dos dois protagonistas me cativou por conta de suas personalidades tão monocromáticas, se tornando mais agradáveis quando se tornam mais tridimensionais. Em vários momentos, os personagens secundários eram mais interessantes de ler. Lina, a colega de apartamento e ex-namorada de Milena, e Mammon, o gato de Bel, são coadjuvantes que me fizeram gargalhar em diversos momentos. Asmodeus e “Belzebisa” não ficam muito atrás. Porém, isso não significa que a trama central não funcione, mas o fato é que não me divertiu tanto quando o elenco de apoio.

Um romance sobre equilíbrio

A narrativa se desenrola em capítulos relativamente curtos, com título de artigos, o que ajuda na imersão e dá uma cadência envolvente à leitura. Mas a magia do livro está mesmo na transformação que os personagens provocam um no outro. Bel, que a princípio era a personificação da luxúria sem freios, aprende a ponderar suas atitudes ao se envolver com Milena. Já ela, possuidora de um senso de justiça exacerbado e acostumada a ter o controle sobre tudo ao seu redor, começa a perceber que viver vai além de seguir regras e padrões rígidos.

É nesse espaço de entendimento mútuo que o romance se instala. Ele cede um pouco, ela também, e ambos descobrem que nem tudo precisa ser tão preto no branco. Não é exatamente um amor épico, mas funciona. Ah, caso esteja se perguntando sobre o hot, devo avisar de que ele está presente. O livro utiliza bem as liberdades que a classificação indicativa de 18 anos permite. Mas, diferente da Ali Hazelwood e outras escritoras, Myriam opta por escrever suas cenas de sexo de maneira mais sugestiva e menos explícitas.

Vizinho Infernal é romantasia soft

Quando digo que Vizinho Infernal tem muito mais de comédia romântica que de fantasia é por conta da sua construção de mundo inexistente. Claro que não esperava nada profundo ou complexo. No entanto, enquanto o casal protagonista tem o equilíbrio como finalidade, a narrativa não encontra o mesmo no que diz respeito à fantasia. Claro, existem momentos em que a natureza sobrenatural de alguns personagens é essencial, mas, em linhas gerais, estamos diante de uma romantasia soft. Ou, em termos jurídicos (para combinar com a personagem), uma romantasia culposa: aquela que não tem intenção de ser uma.

Vizinho Infernal é divertido, leve e ágil, mas não chega a ser memorável. É excelente para curar ressaca literária e funciona muito bem como comédia romântica. Mas quem busca uma romantasia robusta, daquelas de tirar o fôlego, pode se decepcionar. Para mim, foi uma leitura divertida e agradável, mas sem grandes emoções. O que fica é mais o contraste espirituoso entre dois opostos do que a experiência de um romance arrebatador. Ainda assim, me arrancou ótimas risadas.

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Nerd: Tamyris Farias

Designer e produtora de conteúdo apaixonada por cinema e cultura pop. Amante de terror e ficção científica, seja em jogos, séries ou filmes. Mas também não recuso um dorama bem meloso.

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