Desde as primeiras cenas, Vermiglio – A Noiva da Montanha, dirigido e roteirizado por Maura Delpero, nos transporta para um vilarejo quase silencioso nos Alpes italianos, em meio aos ecos da Segunda Guerra Mundial. O filme, que estreia 10 de julho nos cinemas brasileiros, foi premiado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e constrói uma atmosfera de beleza gélida para tratar com delicadeza de temas como educação, tradição e laços familiares.
Logo conhecemos um professor rígido, que vive com a esposa e os filhos em uma rotina disciplinada e conservadora. Essa estabilidade começa a ruir com a chegada de Attilio, um conterrâneo que retorna à vila buscando refúgio com sua família. Ao seu lado está Pietro, um soldado siciliano. Ambos são desertores, o que gera tensão entre os moradores. A situação se intensifica quando Lucia, uma das filhas do professor, se apaixona por Pietro.

Vermiglio é um filme de silêncios, olhares e gestos contidos. Eu, pessoalmente, nunca tive problema com narrativas lentas. Pelo contrário, acredito que precisamos desacelerar o olhar. Em tempos de consumo imediato, às vezes esquecemos de sentir verdadeiramente o que está diante de nós. Entendo quem não se conecta com esse ritmo, mas deixo aqui o convite: experimente. Talvez você se surpreenda.

O roteiro acompanha o ciclo de um ano, até o fim da guerra em 1945, usando o célebre concerto As Quatro Estações, de Vivaldi, como marcador do tempo. À medida que as estações mudam, revelam-se as fissuras de uma comunidade que, à primeira vista, parecia serena. Mesmo as famílias mais tradicionais escondem segredos e desejos reprimidos, que vêm à tona lentamente, com a delicadeza de quem respeita o tempo da emoção.

O cinema tem esse poder de nos tirar da realidade, não apenas em direção ao fantástico, mas também ao profundamente humano. Vermiglio nos leva para uma época e um lugar distantes, onde o isolamento geográfico encontra o peso da tradição e do trauma histórico. Essa distância é o que torna o filme tão fascinante: mesmo longe da nossa experiência cotidiana, ele fala de medos e dilemas muito atuais.
Em meio às privações da guerra, o filme levanta uma questão pungente: é possível manter a arte viva quando falta o essencial? Em uma cena marcante, o professor compra um álbum musical, mesmo com a casa em dificuldades. O gesto revela o valor que ele dá à cultura e à educação — não como luxo, mas como forma de resistência e preservação da humanidade.

Apesar das boas intenções do professor, há contradições e segredos no coração de sua família. Sem spoilers, vale dizer que a descoberta de um livro por sua filha Flávia provoca reflexões profundas. A narrativa não idealiza seus personagens, mas os mostra como humanos, falhos e complexos, o que torna tudo ainda mais rico.
Vermiglio brilha nos detalhes. Ao contrário de tantas produções que subestimam o espectador, este filme acredita na inteligência de quem assiste. Não há excesso de explicações: cada cena, cada silêncio, cada olhar carrega significado.

Outro destaque é a representação das mulheres nesse microcosmo patriarcal. A diretora Maura Delpero explora com sutileza as tensões entre o papel tradicional da mulher e seus desejos de autonomia. Mesmo sob forte repressão, suas personagens encontram formas de resistir, ainda que tímidas.
Tecnicamente, o filme é um primor. A fotografia de Mikhail Krichman combina luz natural com paisagens alpinas de tirar o fôlego, reforçando tanto a dureza quanto a beleza da vida rural. O design de produção merece aplausos: tudo parece ter vivido — os trajes, os interiores, os objetos — como se carregassem história própria.

Tenho apenas duas pequenas críticas: algumas subtramas mereciam mais desenvolvimento (fiquei particularmente curioso com Ada, Virginia e Dino) e senti o final um pouco apressado. Ainda assim, talvez essa tenha sido a intenção da diretora: deixar espaço para que completemos a história com nossos próprios pensamentos.
Vermiglio é daqueles filmes que permanecem com a gente. Mais do que sua beleza visual ou o retrato histórico, é a forma como trata o tempo, o silêncio e os sentimentos que o tornam memorável. Um convite à contemplação, à empatia e à escuta, algo raro e precioso.

P.S.: Além do reconhecimento no Festival de Veneza, Vermiglio teve uma trajetória premiada internacionalmente. Foi indicado ao Globo de Ouro (Melhor Filme em Língua Não Inglesa), ao Gotham Awards (Melhor Filme Internacional), venceu Melhor Roteiro Internacional em Palm Springs, teve sessões lotadas na Mostra de SP e conquistou sete prêmios David di Donatello, incluindo Melhor Filme, Direção e Fotografia. Representou a Itália no Oscar deste ano. Nada mal, hein?
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