Chegou aos cinemas brasileiros nesta última quinta-feira, dia 9 de outubro, Ruídos, terror sul-coreano dirigido por Soo-jin Kim. Como já é de conhecimento comum que o cinema asiático tem um verdadeiro dom em traumatizar nosso psicológico com seus longas de terror, não é nenhuma surpresa eu ter assistido a Ruídos com uma expectativa um tanto elevada. Surpresa mesmo foi ela não ter sido correspondida.
Sim, tem algo fascinante no terror oriental, em especial os da Coreia do Sul. Uma capacidade inata de gerar angústia do trivial e da crítica social. Ruídos, em sua teoria, parte da mesma premissa, apresentando uma protagonista surda e um condomínio que luta contra o abandono. Tinha tudo para se tornar alvo dos meus mais sinceros elogios, masss… Digamos que a narrativa teve alguns “ruídos” impossíveis de serem ignorados.
O desaparecimento que desencadeia o caos
Ruídos acompanha a história de Joo-Young (vivida por Lee Sun-bin), uma jovem com deficiência auditiva que, após o desaparecimento de sua irmã mais nova, Joo-Hee (interpretada por Soo-a Han), decide descobrir o que teria acontecido. O problema é que este não é um caso comum, já que a garota sumiu sem deixar vestígios, sem sair do prédio e talvez nem mesmo do apartamento. Quando se vê diante de circunstâncias incomuns, como ruídos estranhos e uma presença maligna que parece sempre observá-la, a situação fica ainda mais complicada.
Apesar da premissa simples, muito poderia ter se desenrolado a partir dela. No entanto, o longa parece a todo momento estar em dúvida do que fazer com o que tem em mãos. E, na tentativa de abraçar todas as possibilidades, acaba criando uma confusão narrativa que em vez de enriquecer, resulta em uma história fraca e sem muito sentido. Infelizmente, pois o longa tem excelentes tomadas e algumas cenas são realmente perturbadoras.
Ruídos se perde no próprio barulho
Uma hora o filme explora os tais ruídos, que são batidas altas e sons inquietantes que só são ouvidos pelo morador afetado, outra hora parece querer adotar uma linha mais realista, com um perigo de carne e osso. Em meio a tudo isso temos um perfeito exemplo de “esse filme duraria cinco minutos se as pessoas se comunicassem”. Personagens com atitudes pouco inteligentes é algo comum em filmes de terror, mas ainda é irritante. Sobretudo quando se trata de decisões óbvias.
Omissões diante de intimidações, como ignorar bilhetes com ameaças de morte; uma polícia inexistente diante de um desaparecimento, sem sequer considerar uma investigação no condomínio em que o crime pode ter acontecido; uma síndica que despreza queixas de barulhos inexistentes sem ao menos se perguntar o porquê de tantas pessoas reclamarem de sons que não existem. A própria surdez de Joo-Young não se sustenta como fio condutor da história. Já que, apesar de render cenas tensas, é subutilizado.
Um apartamento, mil possibilidades (mal aproveitadas)
Ainda assim, Ruídos prende graças a ótimas atuações e uma ambientação eficiente e claustrofóbica. Estamos tão acostumados a ver casas mal-assombradas que é uma grata surpresa quando nos deparamos com uma ambientação tão pequena. A pouca metragem do apartamento, junto com uma locação tão decadente foram combinações bem acertadas. Ainda que mal exploradas, criam uma atmosfera desconfortável e insegura. Os ruídos do título são uma mistura de batidas altas comuns, que podem facilmente se passar pelo resultado de vizinhos barulhentos, com sons perturbadores de gorgolejo, muito parecidos com os de O Grito. O resultado é um sonido difuso enervante.
Os mistérios levantados durante toda a trama realmente prendem o espectador e o fazem cogitar várias teorias ao longo do filme. Mas quando tudo se revela, são tantas camadas e detalhes despejados no colo de quem assiste que é preciso um minuto para assimilar tudo. A sequência de eventos é tão rocambolesca que se torna confusa, ainda que boa. Soo-jin Kim traz ótimos movimentos de câmera e uma visão inquietante sobre a solitude coletiva. Sobre como todos escutam e sabem de tudo, mas não se importam o suficiente para ajudar.
Ruídos não é um desastre, longe disso, mas poderia ter sido ótimo. Potencial para isso tinha de sobra. É aquele tipo de filme que a gente sai ganhando quando assiste sem expectativas. Ele tenta dizer algo importante sobre solidão, abandono, invisibilidade e sobre o peso de não ser ouvido, mas nunca consegue sair muito da superfície.
Ruídos tentou gritar, mas acabou sussurrando
No fim das contas, é uma ideia boa que tropeça na própria ambição. Tem uma excelente cenografia e um elenco afiado, mas se perde quando tenta equilibrar o sobrenatural, o psicológico e o social, resultando em uma narrativa que soa mais atrapalhada que profunda. Ruídos poderia ter sido um grito, mas acabou sendo só um sussurro ecoando do outro lado da parede.
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