Rede de Intrigas: 45 anos depois

É difícil escolher qual foi o melhor ano da história do cinema. Quem cresceu nos anos 90 provavelmente lembra com carinho as safras de 1994 e 1999, mais recentemente tivemos o ano de 2013 e até mesmo o recente ano de 2019, mas não dá para negar que a década de 1970 é sempre lembrada como uma das mais poderosas e inventivas da história, sobretudo pela ascensão do chamado “cinema de autor”.

A safra do ano de 1975 é sempre lembrada como das mais importantes da história, com clássicos como Um Estranho no Ninho, Tubarão, Um Dia de Cão entre outros, mas o ano seguinte, 1976, é considerada das mais queridas do cinema.

Afinal, este ano nos agraciou com clássicos como Carrie – A Estranha, Todos os Homens do Presidente, Taxi Driver e Rocky – Um Lutador, só para citar alguns.

São filmes que ainda são lembrados com carinho até hoje, não envelheceram e estão recebendo novas versões para a nova audiência.

Mas há um filme nesta mesma temporada que também não envelheceu, fez muito sucesso, foi muito premiado e temos o prazer de relembrar.

Rede de Intrigas, lançado em 1976, é uma obra muito à frente do seu tempo, vencedora de 4 Oscar e assim como Todos os Homens do Presidente, também é dos filmes mais importantes sobre o jornalismo.

O âncora de televisão, Howard Beale (Peter Finch, ótimo!) é demitido em relação à baixa audiência de seu programa, ele anuncia que irá se suicidar e os índices de audiência voltam a crescer, mas os responsáveis por sua ascensão, Max Schumacher (Willam Holden) e Diana Christensen (Faye Dunaway, excelente no papel!) querem detê-lo de uma vez por todas.

Quem dirige o filme é o grande Sidney Lumet. Ele já havia surpreendido a todos no ano anterior com o grande Um Dia de Cão, mas não é exagero dizer que Rede de Intrigas é o seu melhor filme.

O roteiro de Paddy Chayefsky, que também havia trabalhado no premiado Marty, não é uma obra adaptada, é original, mas as inspirações estão visíveis, seja canais de baixa expressão e na influência na mídia em qualquer época.

E não é difícil de associar a história de Rede de Intrigas com a TV brasileira, por exemplo. Será que vale tudo pela audiência? Tudo mesmo? Até baixar o nível da programação ou levar o que se vê em tela ao limite? Até quando a mídia influi na vida das pessoas até que os espectadores acreditem cegamente no que se vê em tela?

E os programas sensacionalistas? Tão presentes na TV aberta, sobretudo no final de tarde, mas que o filme já denunciava essa prática há mais de 4 décadas, será que eles de fato fazem prestação de serviço ou um desserviço em alarmar a população de forma exagerada?

O filme leva essa e estas questões para o seu público, mas engana-se quem acha que este seja uma obra densa, muito pelo contrário: Lumet conduz a ironia fina, porém sagaz de sua história e leva o espectador aos bastidores da TV, sem o glamour que estamos acostumados a ver, mas mostrando que as emissoras são, acima de tudo, empresas. E as grandes estrelas são meros empregados.

Howard é uma estrela para quem vê seu programa e tem fãs por todo o país, mas é uma mera cobaia neste jogo de xadrez onde os poderosos usam sua imagem como bem entendem, já Max e Diana são uma amostra de dois interesses comuns à boa parte dos seres vivos: poder e sexo. Eles são ambiciosos e sempre querem mais, ao passo que não conseguem resistir aos encontros casuais e a atração entre eles é inevitável.

E além de todas essas qualidades, o filme não seria a mesma coisa sem o seu maravilhoso elenco: Beatrice Straight interpreta a esposa traída de Max, ela aparece apenas por 5 minutos em tela, deu um show em sua cena de desabafo ao marido infiel e venceu seu merecido Oscar de Atriz Coadjuvante. Quem também foi premiado com um merecido Oscar foi Peter Finch, que ganhou seu Oscar póstumo, algo que só aconteceu novamente em 2009, quando o saudoso Heath Ledger ganhou o merecido Oscar por Batman – O Cavaleiro das Trevas.

A melhor atuação do filme provavelmente é da Faye Dunaway, que além de também ter ganho seu mais do que merecido Oscar de Melhor Atriz, ainda faz aquele que provavelmente é seu melhor papel, como a anti-heroína Diana, uma mulher sem escrúpulos e que faz tudo pela audiência.

O filme ainda tem a presença dos sempre ótimos Robert Duvall, William Holden e Ned Beatty (estes dois últimos também indicados ao Oscar).

O filme ainda foi um pequeno blockbuster em sua época: custou 3,8 milhões de dólares e faturou 23 nas bilheterias mundiais.

Rede de Intrigas pode não ter se tornado o fenômeno cultural como seus companheiros do mesmo ano, Rocky e Taxi Driver, muitos hoje em dia nem sabem da sua existência, mas é uma obra que merece ilustrar qualquer debate sobre manipulação da mídia, influência da mesma, sensacionalismo e o jogo de interesses.

E merece ser descoberta, já que alguns conceitos são atemporais até mesmo para uma sociedade que se diz “evoluída”.

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Nerd: Raphael Brito

Não importa se o filme, série, game, livro e hq são clássicos ou lançamentos, o que importa é apreciá-los. Todas as formas de cultura são válidas e um eterno apaixonado pela cultura pop.

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