O Último Azul é o novo trabalho de Gabriel Mascaro, que além de assinar a direção, também escreve o roteiro junto de Tibério Azul e também em colaboração com a dupla de Ainda Estou Aqui Murilo Hauser e Heitor Lorega. O longa já conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim deste ano, abriu com prestígio o Festival de Gramado e ainda integra a seleção oficial do Festival Internacional de Cinema Toronto. Com estreia marcada para o dia 28 de agosto nos cinemas brasileiros, é daqueles filmes que, se puder, vale muito a pena viver a experiência na tela grande.
Nele, seguimos Tereza, 77 anos, moradora de uma cidade industrial na Amazônia que, vê seu mundo virar de cabeça pra baixo quando é informada que precisa ir para uma colônia de idosos, um programa estatal de exílio compulsório para a terceira idade, um mecanismo que transforma a velhice em sentença de exclusão. Só que ela decide romper este destino e partir pelos rios e afluentes para cumprir um último desejo.
VOCÊ SABE O QUE É UMA DISTOPIA?
O Último Azul se apresenta como uma distopia, gênero que imagina sociedades futuras ou alternativas marcadas por sistemas de opressão, controle social ou crises que distorcem a vida cotidiana. Gabriel Mascaro já havia explorado um território distópico em seu filme anterior, Divino Amor, ambientado em 2027, onde religião e Estado estão fortemente entrelaçados.

Voltando a O Último Azul, esta é uma produção que coloca o etarismo no centro do debate. Na trama, a sociedade busca descartar os idosos, como se ficar velho fosse um fardo e não uma etapa natural da vida. O longa nos provoca a refletir sobre o verdadeiro sentido de envelhecer e a desconstruir preconceitos. Tereza está velha, sim, mas continua viva, curiosa, cheia de sonhos e vontades. E o que a narrativa ressalta é justamente isso: se tivermos sorte, todos nós chegaremos lá, a velhice é destino comum, ainda que muitos prefiram ignorar essa certeza.
O LONGO PROCESSO DE CRIAÇÃO DE O ÚLTIMO AZUL
Em entrevistas, Gabriel Mascaro revelou que esta obra é fruto de um processo longo, um roteiro que ele foi lapidando ao longo de dez anos. Parte da inspiração veio de sua própria avó, que começou a pintar aos 80 anos, e também de discussões que surgiram durante a Pandemia sobre a vulnerabilidade e a invisibilidade da população idosa. O diretor contou ainda que queria pensar um corpo antigo vivendo o presente, com desejos no presente, e não apenas como um repositório de memórias do passado. Sua intenção era mostrar um corpo idoso com vontades e sonhos, não alguém que estivesse apenas se despedindo da vida. Tereza, nesse sentido, representa essa potência: uma mulher que ainda deseja, ainda sonha e ainda quer celebrar a vida.

ELENCO SIMPLESMENTE FANTÁSTICO E EM SINTONIA COM A HISTÓRIA E A TÉCNICA
O elenco de O Último Azul merece destaque, especialmente a atuação fenomenal de Denise Weinberg, que dá vida a Tereza com uma combinação rara de bondade e sagacidade, ela é boa, mas não é boba! Tereza é a total protagonista da história, conduzindo a narrativa com suas escolhas e vontades, enquanto os demais personagens aparecem ao longo de sua jornada. O Cadu de Rodrigo Santoro, embora coadjuvante, cumpre um papel fundamental, com uma passagem que impacta diretamente a trajetória de Tereza. O filme também valoriza a diversidade do elenco, incluindo atores amazonenses, com destaque para o Adanilo, além da escalação de Miriam Socarras, atriz cubana.
Tecnicamente, este longa é um desbunde cinematográfico. Cada cena é uma obra de arte, como diversos “One perfect shots“, um verdadeiro “This is cinema“, como diria Martin Scorsese. A fotografia, assinada por Guillermo Garza, captura não apenas a vastidão, como uma áurea mística da Amazônia, transformando a floresta em um personagem vivo. A trilha sonora, composta por Memo Guerra, é igualmente marcante e imersiva. A filmagem foi realizada em dois meses, com a maior parte do tempo em barcos pelos rios amazônicos, conferindo autenticidade e intensidade à narrativa.

POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, É BEM-HUMORADO
O Último Azul também flerta com um humor leve, mas nada bobo. Eu morri de rir com o “cata-velho”, quase como se fosse uma carrocinha de cachorro, algo que, à primeira vista, parece absurdo, mas que, naquele universo distópico, se encaixa perfeitamente e soa totalmente verossímil. Não esperava encontrar esse tipo de comicidade, que acaba acrescentando camadas à história sem reduzir a seriedade das questões que ela levanta. Ao mesmo tempo que nos faz rir, é um tipo de realidade tão convincente que também assusta e incomoda, reforçando a força da narrativa.
O filme ainda brinca com o fantástico, mas nunca nos entrega uma resposta definitiva. É realmente magia, ou foi apenas uma coincidência? Aquele líquido azul, de fato, funciona, ou é apenas um alucinógeno? A trama ainda termina de forma aberta, algo que pode incomodar quem prefere conclusões claras, mas essa dúbia finalidade tem seu charme: provoca reflexão, deixa espaço para interpretação e mantém a história viva na mente do espectador muito depois de os créditos rolarem.

VALE O INGRESSO?
O Último Azul é um filme que encanta, tanto pela beleza de sua cinematografia quanto pela força dos temas que aborda. A história de Tereza é, acima de tudo, uma fuga da opressão, seja do Governo, seja da própria família, mostrando que ela não é uma incapaz, mas alguém que ainda tem vontades, sonhos e desejos. O longa nos lembra que nunca se é velho demais para começar algo e que é possível olhar para o futuro, e não apenas para o passado. Dessa forma, ultrapassa-se a crítica ao etarismo, lançando luz também sobre governos totalitários e sobre os laços familiares. Um filmaço!

PS: O Último Azul está na lista final para a escolha de qual filme irá representar o Brasil no Oscar 2026. Ele terá um concorrente à altura, O Agente Secreto, do Kleber Mendonça Filho, com o Wagner Moura, premiado em Cannes. Estamos muito bem servidos como no ano em que tivemos Bacurau e A Vida Invisível... E que ótimas levas de história nosso cinema tem tido, lindo de ver!
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