Envolto em polêmicas, O Brutalista chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro. Com uma história de proporções épicas, o diretor Brady Corbet (Vox Lux) traz Adrien Brody (O Pianista) e Felicity Jones (A Teoria de Tudo) em um filme sobre o brutalismo, estilo arquitetônico que surgiu pós-Segunda Guerra Mundial. E a grandiosidade não está presente apenas no tema, já que o filme conta com 3h36min de duração.
Com o total de 10 indicações ao Oscar, O Brutalista narra, através de László Toth, as consequências físicas e psicológicas daqueles que sobreviveram ao pior período da história moderna e que tiveram que, de alguma forma, reconstruir sua vida do zero. E, apenas pelo teor de seu conteúdo, já é um grande chamariz para premiações. Mas, enquanto se propõe ao epopeico, ele se esquece que grandes espaços tendem a parecerem mais vazios.
Em busca de um recomeço e o mito do Sonho Americano
Em O Brutalista acompanhamos a história de László Toth (Adrien Brody), um arquiteto húngaro-judeu que deixa para trás, junto à esposa Erzsébet (Felicity Jones) e a sobrinha Zsófia (Raffey Cassidy), uma Europa arrasada pela guerra em busca de um novo começo nos Estados Unidos. László encontra no magnata Harrison Van Buren (Guy Pearce) uma centelha de esperança e a promessa do sonho americano quando este propõe um projeto grandioso: uma obra arquitetônica colossal, capaz de imortalizar o nome de László e redefinir a paisagem do país.
No entanto, à medida que a obra avança, o que parecia ser uma escada para o sucesso se mostra uma espiral de obsessão e sacrifícios. Em três décadas, enquanto László e Erzsébet são arrastados para um turbilhão de desafios, a glória e o reconhecimento se transformam em desilusão e tragédia. Juntos, eles veem que os sacrifícios impostos pela ambição de deixar sua marca no mundo podem ser um preço alto demais.
O Brutalista chega em um momento delicado na política estadunidense. Afinal, em meio à crise da imigração, contar a história de um imigrante judeu que chega nos EUA em busca de recomeço e encontra desdém e preconceito, é como colocar um holofote no pretenso Sonho Americano. Mas Corbet não apenas aponta o dedo para o mito da “Ida à América”, ele o ataca e mostra, de forma pedagógica, o que acontece quando existem mais diferenças que semelhanças entre os que chegam e os donos da “casa”.
Beleza sem acabamento
Apesar dos diálogos com a realidade atual e das perfeições técnicas que o filme apresenta, o épico de Brady Corbet se mostra exatamente como o projeto que László constrói: Monumental, bruto e com muitos espaços vazios. Assim como o concreto, a narrativa criada por Corbet e Mona Fastvold parece sem acabamento. Com muito peso e imponência, sim, mas frio.
Há muito subtexto e pouco desenvolvimento. Muitas questões levantadas são descartadas ou contraditas, talvez em uma tentativa de fazer o espectador refletir. Porém, a forma com que a narrativa instiga essas discussões é leviana. Ao longo das mais de 3h de duração, o filme levanta subtextos sobre incesto, homossexualidade, infidelidade, abuso de drogas, opressão, violência sexual… A lista é longa. Ainda assim, nada é explorado para além da sugestividade ou de maneira satisfatória.
E não existe problema em deixar que o público reflita sobre o que vê na tela. O problema existe quando há uma preparação narrativa, uma ação propriamente dita, mas sua resolução se dá fora da tela e sem consequências palpáveis ao público. O que transforma O Brutalista em um longa mais pretensioso que provocador. Uma pena, já que havia muito potencial. A começar pelo elenco.
Atuações que merecem ser apreciadas
Adrien Brody, que já ganhou o Oscar de melhor ator por O Pianista, está impecável como László Toth. E quando paramos para analisar a lista de infortúnios que vemos em tela, é inevitável pensar que Brody é o ator perfeito para o papel. Sua entrega física e a forma como transita entre a esperança da ascensão e a desilusão da ruína impressiona. É uma pena que uma performance tão assertiva seja maculada pela utilização de um artifício tão polêmico quanto a IA. A tecnologia foi usada para refinar os diálogos em húngaro.
Felicity Jones também entrega uma excelente atuação. Sua Erzsébet é forte, resiliente, convicta e com um ar enigmático. Aparecendo apenas na segunda metade do longa, Jones nos brinda com uma personagem que faz falta quando não está em tela. Que desperta a curiosidade do espectador em saber como ela encara as próprias lutas.
Um outro acerto em O Brutalista é Guy Pearce (Homem de Ferro 3) como o magnata megalômano Harrison Van Buren. É através de pequenas ações e reações que Pearce personifica o poder que seduz e corrompe. Não demora para percebermos pequenas agressões disfarçadas de gentileza, a manipulação maquiada por boas ações. E Pearce transmite essa dualidade de forma eficaz.
O vazio por trás da imponência
A sequência inicial de O Brutalista é impactante. Não pela grandiosidade, mas pela forma objetiva com que é filmada. Com uma estética incrível e uma trilha sonora marcante, a imagem da Estátua da Liberdade de cabeça para baixo serve para alertar o espectador sobre uma possível quebra de paradigmas. Após essa entrada e a abertura esteticamente lindo, é impossível não criar uma expectativa para o desenrolar da trama. Mas, infelizmente, essa expectativa não é atendida.
Apesar de Brady Corbet ter feito um excelente trabalho de direção, com enquadramentos estáticos e planos-sequência densos, sinto que sua preocupação maior estava na estética e no conceito que queria dar ao filme. A combinação da trilha sonora e da filmagem com precisão arquitetônica gera um resultado lindo aos olhos, mas sem substância. Principalmente porque o filme não sustenta as insinuações que faz.
Muito é dito, pouco é desenvolvido e muito não é resolvido. Não em tela, pelo menos. Sempre que há uma questão importante a ser definida, o filme corta e retorna com uma passagem de tempo e com tudo já resolvido. Algumas vezes sem se dar ao trabalho de mostrar como. Isso frusta, pois parece que o filme está sempre engatilhando uma apoteose, mas ela nunca acontece.
Monumental até na duração
Para os preocupados com a longa duração de O Brutalista, um aviso: a exibição contará com um intervalo de 15 minutos. Apesar de ser pouco usual, esse intervalo faz parte do longa e é adequado para marcar a virada do filme. Então não espere que o cinema sinalize, ou até acenda as luzes, pois o contador aparece na própria película, acima da foto de família de László.
Na primeira parte, vemos um László Toth em adaptação à nova realidade, enquanto espera a chegada da família. Já na segunda parte, temos a introdução de Erzsébet e Zsófia, gerando uma nova dinâmica entre as personagens. Confesso que essa pausa foi essencial para que o filme não se tornasse demasiadamente arrastado. Ainda é longo, mas o interlúdio não permite que se torne maçante.
Monumental na forma, frágil na essência
O Brutalista é pretensioso ao ponto de te fazer pensar que assistiu uma obra-prima. Mas é o tipo de filme que, quanto mais você pensa nele, pior ele vai ficando. Embora o cuidado com os detalhes e a dedicação para com as cenas que acompanham a construção do monumento sejam notáveis, a narrativa, em si, não justifica tanto tempo de tela. No fim, é uma longa trajetória de degradação, com um final anticlimático, embalado em papel bonito. Assim como uma construção brutalista, impressiona pela fachada, mas, ao longo do tempo, revela seus defeitos estruturais.
O Brutalista estreia amanhã, somente nos cinemas.
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