Com estreia marcada para o próximo dia 25, O Auto da Compadecida 2, continuação da aclamada adaptação da peça de Ariano Suassuna, chega para celebrar os 25 anos da obra-prima de Guel Arraes. Mas, o que deveria ser uma homenagem com sabor de nostalgia, se parece mais com um doce meio amargo. Tinha tudo para ser um belo presente de Natal, mas está mais para aquela lembrancinha dada no amigo secreto da firma, que acaba sendo de pouca utilidade.
O Auto da Compadecida 2 se passa 20 anos depois do primeiro filme, e narra o retorno de João Grilo a Taperoá, após duas décadas sumido. Durante esse tempo sem seu parceiro de trambicagens, Chicó mantém viva a história do suposto milagre de Nossa Senhora ao trazer seu amigo de volta à vida. Agora reverenciado como um santo milagreiro, João Grilo atrai a atenção dos dois políticos mais influentes da região, dispostos a explorá-lo como cabo eleitoral. Vendo ali a chance de finalmente enriquecer, o malandro arquiteta um de seus tradicionais golpes. Mas, como antes, os planos não saem conforme o esperado, e o passado, incansável, volta a rondar o sertanejo.
O Auto da Compadecida 2 confunde nostalgia com cópia
Muito aguardada por alguns e bastante questionada quanto à necessidade de sua existência por outros, O Auto da Compadecida 2 tenta explorar a sensação cinematográfica do momento: Nostalgia. Porém, a produção acaba mostrando bem como não se deve trabalhar com ela. E o que era para ser um acalento para os fãs da obra original, acabou se tornando uma cópia de si mesmo.
Colocando de uma forma simples, O Auto da Compadecida 2 parece um eco, uma repetição de praticamente todos os momentos marcantes do primeiro, mas sem a mesma força. A dinâmica entre João Grilo e Chicó permanece exatamente a mesma, com suas mentiras e falcatruas. Temos o retorno de personagens e, na falta deles, novos que repetem seus estereótipos.
Crítica política acentuada
O texto original de Suassuna, no qual o roteiro de Guel Arraes se baseia, é brilhante e cheio de camadas simbólicas, com uma crítica política/social muito bem colocada. Já sua continuação mostra tanto empenho em atualizar o discurso que soa forçado, explícito. Auto 2 evoca uma reflexão quanto ao cenário político atual de uma maneira nada sutil. Verdade seja dita, muito da riqueza verbal presente no original se perde para dar lugar a uma série de esquetes previsíveis e pouco inspiradas.
Com pouco para digerir e muito para questionar, sobra pouco espaço para a comédia em si, que soa dois tons abaixo do que seu antecessor. Enquanto o primeiro longa fez muitos chorarem de rir, neste percebe-se a perda da espirituosidade e da agilidade de um texto rico. Com isso, o humor parece batido, envergonhado e com uma agourenta semelhança com o pior do humorístico Global, aquele que se alimenta de bordões como se esses fossem o ápice da comédia. Não é de todo o ruim e consegue extrair algumas risadas sinceras. Mas nem de longe se compara com a obra de 2000.
O Auto da Compadecida 2 tem boas adições ao elenco
Selton Melo e Matheus Nachtergaele retornam a seus icônicos papéis. É até desnecessário dizer que ambos estão incríveis. Das adições ao elenco, destacam-se Eduardo Sterblitch, como o dono da mídia de Taperoá Arlindo, e Humberto Martins, como Coronel Ernani. Fabiula Nascimento também está ótima como Clarabela, uma junção das personagens Dora e Rosinha do primeiro filme. Dessa vez, a excelente Taís Araújo faz as vezes de Nossa Senhora, em uma versão mais enérgica. Sergio Miranda também está ótimo com Antônio do Amor, embora seu personagem seja o mais aleatório na produção.
Falhas na trama e direção de arte
Mas o que realmente incomoda é, sem dúvidas, a trama. O roteiro até funciona como cenas isoladas, mas acaba se perdendo quando olhamos o conjunto. De fato, é difícil ver sentido quando analisamos a obra como um todo, pois nada soa orgânico. Personagens que vêm e vão sem muita explicação, com motivações vagas ou pouco críveis, além de atitudes pouco condizentes com o que já tinha sido estabelecido.
O Auto da Compadecida 2 traz na fotografia uma super teatralidade, o que dá a sensação de estarmos diante de um grande palco. Algo que Guel Arraes já trouxe em Grande Sertão. Apesar de ser uma escolha que faz sentido com a obra, a decisão de gravar inteiramente em estúdio resultou em uma estética bela, porém sem vida.
O Auto da Compadecida 2 é um prato requentado
No fim das contas, O Auto da Compadecida 2 parece um prato requentado de uma refeição que estava muito saborosa no dia anterior. E, embora ainda tenha um gosto bom, já não desperta tanto o paladar. Soa mais como uma readaptação do que como uma continuação. Como homenagem, vale a conferida. Mas como obra original, melhor ficar com a lançada em 2000.
Posts Relacionados:
Mufasa: O Rei Leão – Uma Nova Perspectiva de uma História Clássica
A Guerra dos Rohirrim: novo estilo para O Senhor dos Anéis
Moana 2: Visual Deslumbrante e Mensagem Poderosa, Mas com Falhas
Não esquece de seguir o Universo 42 nas redes sociais: