Filhos surpreende por ser tenso e imprevisível | CRÍTICA

Filhos (Sons / Vogter), novo drama do Gustav Möller (mesmo diretor do excelente Culpa, premiado em Sundance e indicado do Oscar em 2019), é um filme onde algumas sinopses acabaram entregrando um detalhe crucial da trama. O trailer, por outro lado, construiu com muito mais cuidado e suspense. Porém, na prática, o mistério central não é exatamente um mistério: percebemos rapidamente quem a protagonista é, mesmo que essa revelação só seja 100% confirmada no ato final. Ainda assim, esse dado não tira o peso da experiência, pelo contrário, o longa mantém uma tensão constante do início ao fim e ainda consegue se tornar imprevisível em seus desdobramentos. 

Depois de passar por diversos festivais de cinema no ano passado, incluindo o prestigiado Festival de Berlim, o filme chega aos cinemas brasileiros no dia 31 de julho.

Eva (Sidse Babett Knudsen) é uma agente penitenciária que dá seu melhor para agir com justiça e apoiar os homens que cumprem pena na prisão onde trabalha. Ao descobrir que Mikkel (Sebastian Bull), um jovem de seu passado, foi transferido para a ala de segurança máxima, ela decide pedir para trabalhar ali. No entanto, os verdadeiros motivos que a levam a querer estar próxima de Mikkel, que ela mantém em segredo de seus superiores, acabam conduzindo Eva a atitudes que colocam em xeque sua noção entre o certo e o errado.

Filhos é um baita thriller psicológico, aquele subgênero do suspense que mergulha nos aspectos mentais e emocionais dos personagens, mais do que na ação física ou nos eventos externos. Aqui, a tensão não nasce apenas de ameaças ou perigos visíveis, mas do conflito interno, dos dilemas morais e da instabilidade psicológica que consomem seus protagonistas.

Assim como em Culpa, o filme anterior de Gustav Möller, que acompanha um operador de emergência, Filhos também mantém um foco intenso em sua personagem principal. Ambas as obras criam uma tensão a partir de espaços confinados, explorando o ambiente restrito para amplificar o suspense. Além disso, os dois longas mergulham fundo na moralidade e nas escolhas difíceis, navegando pelos dilemas éticos e mostrando o impacto emocional dessas decisões na vida dos personagens.

As narrativas são centradas e econômicas, com o diretor evitando excessos e valorizando a construção do suspense por meio da atuação e da atmosfera, em vez de depender de grandes eventos ou reviravoltas complexas. Em essência, ambos os filmes trabalham intensamente temas de ética e dilemas morais

A atuação de Sidse Babett Knudsen é simplesmente impressionante. Reconhecida internacionalmente por seu trabalho na série Borgen e em longas com destaque no cinema dinamarquês, ela possui aqui em uma performance extremamente contida. Muito é dito através do olhar, do gesto e do silêncio, Uma atuação altamente não-verbal que carrega o peso emocional da história. A personagem Eva, inicialmente vista como uma pessoa justa e dedicada, gradualmente se torna imprudente, movida por sentimentos de ódio, vingança e culpa.

Essa transformação é capturada de maneira sutil e poderosa pela atriz, que conduz o público por essa descida psicológica, mostrando uma mulher que muda profundamente após decidir partir para a ala de segurança máxima, enfrentando seus próprios limites morais e emocionais. 

Filhos é uma produção conjunta entre Dinamarca e Suécia, falado majoritariamente em dinamarquês, com algumas falas em inglês ao longo da narrativa. O roteiro, assinado por Gustav Möller e por Emil Nygaard Albertsen, foi desenvolvido a partir de uma intensa pesquisa que incluiu consultas a agentes penitenciários reais, garantindo um retrato do ambiente prisional do país. Um dos recursos técnicos mais marcantes é o uso do formato de tela 4:3, que reforça a sensação de confinamento e opressão vivida pelos personagens. Além disso, praticamente não conta com trilha sonora, apostando em sons perturbadores da prisão para criar uma atmosfera sufocante e realista

Embora Filhos seja um filme sólido, há aspectos que poderiam ter sido melhor explorados. Na segunda metade do longa, Eva começa a demonstrar um certo receio, mas essa mudança de postura poderia ter sido desenvolvida com maior profundidade. Além disso, há algumas passagens que podem soar mais como facilitações de roteiro do que como algo crível dentro do sistema carcerário dinamarquês. Afinal, seria realmente tão simples conseguir aquelas regalias em uma prisão de segurança máxima?

Essa possível falta de verossimilhança tira um pouco da imersão, mas ainda assim, a obra mantém um excelente ritmo e consegue causar um grande impacto emocional em seu desfecho. O final aberto, no entanto, pode não agradar a todos os espectadores.

Filhos é mais do que um thriller psicológico eficaz, é um estudo potente sobre justiça, punição, reabilitação, moralidade, ética, vingança e trauma. Com uma estética claustrofóbica e narrativa minimalista, a produção constrói uma experiência moralmente inquietante, que envolve o espectador de forma intensa e emocional, nos convidando a uma reflexão incômoda sobre até onde a busca por justiça pode distorcer os valores de quem a persegue.

Posts Relacionados:

Uma Família à Prova de Balas: desastre genérico que nem Cristina Ricci consegue salvar | CRÍTICA

Quarteto Fantástico retorna com Primeiros Passos e aposta na força da família | CRÍTICA

Duchess: Charlotte Kirk é a alma vingativa por trás de romance criminal cheio de reviravoltas | CRÍTICA

Não esquece de seguir o Universo 42 nas redes sociais:

Instagram YouTube Facebook

Nerd: Verônica "Vevê" Cysneiros

🎬📺🎸 Cinéfila de carteirinha (vejo tantos filmes que às vezes esqueço como funciona a vida real), maratonista de séries (minha lista de “vou assistir depois” já tem títulos suficientes para outra vida.), apaixonada por animações (aguardando minha carta de admissão para algum universo mágico) e movida a rock n' roll (rockeira na alma, mas sem talento musical, só no air guitar), compartilho tudo o que faz meu coração geek bater mais forte. Pega a pipoca e vem comigo meus Preferidos!

Share This Post On