Depois da Caçada: Luca Guadagnino entrega desconforto puro em drama psicológico | CRÍTICA

Depois da Caçada, novo filme de Luca Guadagnino com roteiro de Nora Garrett, chega aos cinemas com uma proposta clara e perturbadora: causar desconforto. E cumpre essa missão com precisão cirúrgica. É um drama psicológico que não oferece alívio, mergulhando em dilemas morais espinhosos com uma crueza que incomoda e hipnotiza ao mesmo tempo.

A trama gira em torno de uma professora universitária, interpretada por Julia Roberts, que se vê encurralada quando um aluno promissor faz uma grave acusação contra um colega de departamento. O caso ameaça trazer à tona um segredo obscuro de seu passado, colocando sua carreira, reputação e sanidade em xeque. O roteiro trabalha com camadas de ambiguidade moral, sem oferecer respostas fáceis.

Um desconforto milimetricamente calculado

Guadagnino não busca agradar. Ele usa o desconforto como linguagem, construindo cenas que fazem o espectador se contorcer na poltrona. Os ruídos altos, os silêncios incômodos e uma trilha sonora estridente criam uma atmosfera claustrofóbica e irritante, quase como uma provocação sensorial. É um filme que te obriga a sentir, mesmo quando você não quer.

O som se torna protagonista. Há momentos em que o silêncio parece gritar mais alto do que qualquer diálogo. E isso não é por acaso. A montagem é precisa em intensificar a tensão, minuto a minuto.

Julia Roberts desconstrói o heroísmo

Julia Roberts é o coração pulsante de Depois da Caçada. Interpretando uma professora de filosofia, ela entrega uma atuação contida, mas cheia de camadas. Suas interações com Andrew Garfield e Ayo Edebiri são o ponto alto do filme, mostrando uma personagem que se desmonta aos poucos, revelando fragilidade e culpa.

No centro do furacão está Julia Roberts, em uma das performances mais complexas de sua carreira. Como professora de filosofia, ela entrega uma atuação contida, mas devastadora, revelando aos poucos uma personagem consumida por culpa, orgulho e contradições morais. Suas cenas com Andrew Garfield e Ayo Edebiri são intensas, marcadas por olhares silenciosos e tensão mal resolvida.

Garfield assume um papel propositalmente caricato. Seus gestos e falas carregam ambiguidade, deixando o público em constante dúvida sobre suas verdadeiras intenções. Ele é o desconforto encarnado.

Ayo Edebiri, apesar de competente, tem pouco espaço para aprofundar sua personagem. Faltam-lhe nuances e conflitos internos que o roteiro apenas sugere, mas não desenvolve.

Entre o real e o simbólico

Depois da Caçada oscila entre o realismo cru e o exagero simbólico. Personagens como o de Michael Stuhlbarg ampliam esse contraste, transitando entre o drama pesado e o absurdo. Em alguns momentos, o longa parece perder o foco especialmente no terceiro ato, que se arrasta e dá várias falsas conclusões.

Ainda assim, é impossível negar a força autoral de Guadagnino, que entrega talvez sua obra mais experimental e controversa até agora.

Depois da Caçada caminha numa linha tênue entre realismo psicológico e exagero simbólico. A presença de Michael Stuhlbarg evidencia esse contraste. Seu personagem flerta com o grotesco e o absurdo, criando um tom que em certos momentos enriquece o filme, mas em outros dilui a força dramática.

O terceiro ato é o ponto mais controverso. Repleto de falsas conclusões e ritmo arrastado, parece indeciso sobre onde terminar. Ainda assim, é um desfecho coerente com a proposta do filme: não oferecer conforto, nem fechamento fácil.

Depois da Caçada provoca, mesmo sem querer ser amado

Depois da Caçada não é para todos. É um filme difícil, tenso e deliberadamente desagradável. Guadagnino não quer que você goste do que vê. Ele quer que você pense sobre isso quando as luzes se apagam.

Mais do que um drama, é um ensaio sobre moralidade, poder e memória. E talvez, por isso mesmo, seja um dos trabalhos mais autorais e ousados do diretor até agora.

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Nerd: Marina Bueno

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