Contos do posto de gasolina (Parte 3/8)

Há vezes em que o tecido da realidade fica tão fino que consigo ouvir alguém me chamando por trás do véu. Às vezes, quando me aproximo demais, consigo sentir a coisa do outro lado dando puxões nos cantos da minha mente.

Estou preocupado com o Carlos. Ele não parece estar levando as coisas numa boa.

 

Caso você não saiba, trabalho em um posto de gasolina de merda no limite de uma cidadezinha, e coisas estranhas acontecem desde que entrei aqui. Finalmente comecei a contar algumas das minhas histórias e, se você ainda não as leu, gostaria de convidá-lo a ler as parte um e dois.

 

Quando voltei para o trabalho depois do meu último post, fui surpreendido por uma pilha de recibos organizados perfeitamente sobre o caixa, escritos em minha própria caligrafia tremida. Não me lembro de escrevê-las, mas de novo, não me lembro de muitas coisas. É possível que eu esteja trabalhando demais. Ou talvez que a fumaça vinda debaixo do posto esteja me pregando peças. Ou até mesmo seja mais um efeito colateral da minha condição. De qualquer modo, cavalo dado não se olha os dentes Aliás, nenhum outro animal em nenhum outro orifício.

Confesso que minha caligrafia não é das melhores. E por vezes os rabiscos nos recibos estavam quase ilegíveis. Então, se algo aqui parecer inacreditável, possivelmente é porque copiei errado. Com isso em mente, esta é a melhor transcrição que puder fazer:

 

7:00 – Está escurecendo mais cedo por esses dias.

 

7:30 – O Fazendeiro Júnior veio essa noite, perguntando sobre as plantas em formato de mão. Eu disse que elas não estavam mais lá. Ele escreveu seu número de telefone atrás de um cupom de 15% de desconto em comida para porcos a granel de um revendedor online e deixou comigo. Acho que ele está tentando me dizer alguma coisa.

 

9:00 – Acho que algumas crianças podem estar tentando tirar uma com a minha cara. Encontrei um gnomo de jardim atrás dos torresmos. Deixei para lá e o coloquei em uma caixa atrás do balcão. Mas achei outro gnomo na caixa de refrigerante. Coloquei-o na caixa junto com o outro. Foi só depois de encontrar o terceiro e o quarto gnomos que comecei a suspeitar de algo. Saí para colocar o lixo para fora quando os vi em um galho de uma árvore bem acima da lixeira, olhando para baixo e para mim como se fossem gárgulas. Usei uma cadeira e uma vassoura para pegá-los e os coloquei na caixa junto com os outros três. Quando voltei para a minha mesa, encontrei um bilhete escrito em vermelho sobre minha cadeira. Só dizia: “estamos nas paredes”. Não sei quem o escreveu, mas o papel cheira a laranja e plumerias.

 

10:00 – I fear Rocco and his brood may have infiltrated the building again. Tem um som estranho de arranhões vindo dos azulejos acima do caixa. Temo que Rocco e seu bando tenham invadido o prédio de novo.

 

11:00 – O Fazendeiro Júnior ligou. Perguntou sobre as plantas em forma de mãos. Garanti a ele que elas não estão mais lá e, caso aparecessem de novo, entraria em contato. Acho que ele está começando a suspeitar que estou mentindo.

 

12:00 – Um dos cultistas recrutas estava se escondendo na floresta (eles odeiam quanto os chamo de cultistas). Sei que os recrutas não podem interagir com o mundo exterior, mas de vez em quando eles fogem para a cidade, até as proximidades do posto, e compram cigarros. Eles não deveriam recrutar novos membros até atingirem o status de cultistas sênior honorários, mas este não é um cultista muito bom. Sei que eles não deveriam ter nomes, mas vou chamar este de Marlboro. Adivinhem o motivo.

Marlboro ficou na loja por pelo menos meia hora, tentando me convencer a voltar para o complex com ele (eles odeiam quando chamo a casa deles de complex). Tentou ir pelo caminho lógico, mas respondi, de forma muito educada e firme, que eu não estava interessado em lógica. Não me lembro quando ele foi embora.

 

2:00 – Quando me dei por mim, estava cavando de novo. Às vezes, em noites sem movimento, dou umas viajadas. Minha mente vai longe e quando volto, penso: onde eu estava? Quem estava controlando meu corpo enquanto eu estava longe?

Meu corpo fez aquelas coisas. Já fiz tantas vezes que acho que ele aprendeu como fazê-las sem mim. Meu corpo repõe os cigarros, meu corpo girou a máquina de raspadinha, meu corpo tirou o mofo debaixo dos baldes de gelo, meu corpo esvaziou as armadilhas contra ratos e, em alguém lugar no meio do caminho, meu corpo encontrou uma pá, foi para fora e começou a cavar um buraco.

Na verdade, eu não diria que meu corpo “começou” a cavar. Estou cavando – ou seria meu corpo? – este buraco de vez em quando nos últimos meses. Normalmente, “acordo” após cavar um pouco. Desta vez, fiz mais um pouco antes de voltar a realidade e me perguntar: “que droga estou fazendo?”.

 

3:30 – Acabei de perceber uma porta no final do corredor passando pelo refrigerador. Por quanto tempo trabalho aqui e nunca percebi essa porta? Para meu desapontamento, ela parece uma porta normal, com exceção de ser quente ao toque e parece estar vibrando. Tentei abrir, mas está trancada.

Quando voltei para o caixa, notei um homem usando sobretudo parado do lado de fora, além das bombas de gás, onde as luzes não o iluminavam, perigosamente perto da pista. Não consigo dizer se ele está olhando para mim ou para a floresta logo atrás da loja de conveniência. Gostaria que ele não estivesse parado ali, imóvel, com seus braços passando seus joelhos.

Os arranhões nos azulejos no teto acima do caixa estão ficando mais altos.

 

3:45 – Um homem entrou na loja, trazendo consigo uma grande caixa de isopor. Tinha olhos azuis fundos, pelos saindo do nariz e das orelhas, dedos longos e ossudos e pele mais pálida que papel aparentando veias azuis e verdes por trás da derme translúcida. Usava um chapéu coco e cheirava a leite. Definitivamente, nunca o vira antes. Perguntou se eu estaria interessado em ser seu sócio. Ele vendia carne moída com desconto, mas eu disse que ali não vendíamos “comida fresca” e sugeri que ele tentasse fazer carne seca tipo aperitivo. Antes de partir, ele pegou um pouco de carne moída crua de dentro da caixa de isopor, embrulhou-a e me deu como “amostra”. Quando ele foi embora, coloquei a carne dentro do refrigerador, onde encontrei outro gnomo me esperando. Coloquei-o dentro da caixa com os outros sete.

 

4:00 – Carlos acabou de me contar algo muito estranho sobre o Kieffer.

 

4:30 – Havia um garoto chamado Spencer Middleton que foi para a mesma escola que eu e o Kieffer. Spencer era só um ano mais velho que eu, mas parecia bem mais velho e agia como se fosse bem mais novo. Moro em uma cidade pequena, e cidades pequenas são entediantes. Para se divertir, alguns fofocam, outros têm hobbies mais sinistros. Este sempre alimentava as fofocas. Havia rumores pela cidade de que Spencer gostava de torturar e matar animais. Rumores de que os pais e os irmãos de Spencer sempre trancavam as portas de seus quartos quando iam dormir. Os rumores não diminuíram após o incêndio na casa de Spencer, o qual Spencer foi o único a escapar sem nenhum arranhão.

Uma vez vi Spencer pisar alegremente em um lagarto, arrancar sua cabeça e rir.

Algum tempo após sua casa pegar fogo pela segunda vez, Spencer saiu da cidade. Dizia-se que ele havia ido embora para se alistar ao exército. Não sei o que acho disso, mas eu simplesmente não penso sobre isso. Estaria perfeitamente feliz em nunca pensar nisso, mas, depois de todos esses anos, fui obrigado a pensar sobre tudo isso. Porque Spencer Middleton acabou de vir à loja e comprar um copo de café. Ele está sentado em uma das cabines, falando com o Kieffer.

Marlboro voltou. Ele me perguntou se eu poderia ouvir sobre sua religião falsa (eles não gostam quando a chamo de falsa). Falei para que ele fosse embora. Ele pareceu chateado.

 

4:45 – Spencer e Kieffer conversaram por algum tempo e não compraram nada além de dois copos de café. Avisei ao Carlos quando eles foram embora. Ele estava se escondendo debaixo de um cobertor no refrigerador, embora eu não entenda muito bem o motivo.

Carlos me explicou exatamente o que aconteceu. Ele terminou seu turno havia algumas noites e havia acabado de ir embora quando vi a SUV do Kieffer estacionada em uma vala na colina. Carlos, sendo o cara bom que ele é, decidiu checar se Kieffer precisava de alguma ajuda. Ele disse que quando estacionou e saiu do carro, pode ouvir o que parecia um barulho alto de algo sendo triturado logo atrás das árvores.

Carlos decidiu investigar. Foi quando ele viu algo. Quando perguntei o que Carlos tinha visto, ele começou a falar em espanhol muito rápido, de uma forma assustada. Não falo espanhol, mas acenei com a cabeça durante todo o tempo de forma empática. A única palavra que consegui entender foi “Strega”, que é o nome de uma bebida que vendemos.

Seja lá o que Carlos vira, fez com que ele corresse de volta para seu carro o mais rápido possível e dirigiu para longe depressa, sem olhar para trás. E foi quando ele atropelou o Kieffer.

Carlos é um cara bom. Mas aqui está ele em uma situação difícil. Ele parou longe o suficiente para sair, ver como Kieffer estava e confirmar que ele realmente estava morto. Não havia nada que ele pudesse fazer que fosse mudar aquilo. Havia sido um acidente. Ele estava em liberdade condicional. Não havia nada na floresta, e Carlos tinha que tomar uma decisão. Então, ele colocou o corpo no porta-malas de seu carro e foi embora.

Carlos pegou seu carro e me mostrou o corpo. Posso confirmar, com cem por cento de certeza, de que era Kieffer no porta-malas de seu carro. Não só por causa de seu rosto inegável, mas também por  que seu telefone e sua carteira estavam em seus bolsos.

 

5:00 – Me cansei dos arranhões e tirei a escada do estoque para checar o que os guaxinins estavam fazendo no telhado, mas quando tirei um dos azulejos, a única coisa que vi lá em cima foi outro gnomo. Com este, são doze agora.

 

6:00 – O homem de sobretudo ainda está lá fora.

O cultista voltou, requisitando uma audiência comigo, insistindo que se eu somente o ouvisse, veria que seu raciocínio é soberbo e perfeito, e que eu seria um tolo em não se juntar a ele na perfeição de lógica e nirvana que é sua estrutura de crença.

Concordei em ouvir seu discurso se ele concordasse em pedir para o homem de sobretudo ir embora. Após fazermos um apressado contrato verbal, preparei-me mentalmente para ouvi-lo. Honestamente, ele realmente teve bons argumentos, mas imaginei que isso é de se esperar de um experimento de pensamento viral bom o suficiente para convencer pessoas perfeitamente normais a abandonarem suas vidas reais e irem viver em comunidade na floresta perto do posto de gasolina de merda no limite da cidade.

 

Eles se chamam de “matemáticos”. Acreditam que a espécie humana existe para cumprir dois imperativos morais: diminuir o sofrimento e aumentar a felicidade. Uma vida bem sucedida tem mais felicidade do que sofrimento. Uma vida decente tem menos sofrimento do que felicidade. Pode-se saber o quanto uma pessoa é boa por quanto sua felicidade aumenta e seu sofrimento diminui. Claro que, se a pessoa tem uma disseminação negativa – ou seja, se ela diminuiu sofrimento menos do que aumentou felicidade – isso quer dizer que, de maneira simples, essa pessoa é má. Sendo assim, se uma pessoa produz grandes quantidades de felicidade e sofrimento, pode-se simplesmente descobrir-se qual é maior e usar essas instruções perfeitas para determinar se ela é boa ou má. Simples, não?

Os matemáticos acreditam que o mundo tem interpretado bom e mal da maneira errado. Por muito e muito tempo, estamos tentando atingir a felicidade, quando na verdade deveríamos focar mais em diminuir o sofrimento. Como a felicidade é um conceito fluido e, quanto mais felicidade se cria, mais difícil fica de sustentá-la, ela também tem muitos retornos pouco favoráveis. Sofrimento, por outro lado, é consistente. Sofrimento é o resultado do fim da felicidade. Sofrimento é puro e eterno. Para que os matemáticos sejam bons de forma suprema, eles simplesmente devem acabar com todo o sofrimento. Por isso matemáticos estão trabalhando em uma bomba para destruir todo o planeta.

Ao extinguir toda a vida na terra, eles irão acabar com uma infinidade de sofrimento no futuro. A cada pessoa que eles dizimarem, uma linhagem inteira de pessoas que poderiam nascer em uma vida cheia de sofrimento não correrá mais esse risco. Cada morte é um assassinato preventivo de misericórdia. Cada momento feliz que não vai mais acontecer tem menos impacto quando comparado a todos os momentos tristes que foram evitados.

E assim, como Marlboro explicou, seu culto assassin acredita que matar é um ato de bondade.

Disse a ele que suas ideias são idiotas e que ele é idiota e que era a vez dele de ir falar para o homem de sobretudo ir embora.

6:30 – O telefone tocou.

Isso é estranho por dois motivos. O primeiro é que não foi a nossa linha fixa. Foi o celular, mesmo não tendo sinal aqui. E segundo é que era o celular. O celular que eu peguei do corpo do Kieffer.

Admito que estava tendo um dilema moral desde que Carlos se abriu comigo. Por um lado, Carlos havia matado alguém. Por outro, havia sido um acidente e o agente da condicional de Carlos poderia não ver com esses olhos. Achei que fosse ter mais tempo para entender tudo isso, mas quando o celular começou a tocar, eu sabia que tinha que tomar uma decisão.

 

 

Não disse nada. A voz do outro lado da linha me era conhecida.

 

– Você está com algo que pertence ao meu chefe.

 

Era Spencer Middleton.

– O celular e a carteira dele. – respondi.

– Quê? Não! Não ligo para isso! Podemos comprar mais telefones. Podemos arranjar carteiras novas. Você sabe o que queremos.

Ele estava certo. Eu sabia.

– Foi um acidente. – expliquei.

– Sabemos disso. Queremos fazer um acordo. Nos devolva e fingimos que nada disso aconteceu.

– Podemos fazer isso?

– Com certeza.

 

7:30 – Carlos chegou para seu turno há uma hora e expliquei para ele sobre o acordo. Ele não pareceu animado, mas conforme fui explicando tudo, ele não teve escolha.

Paramos o Camry de Carlos atrás do posto de gasolina perto das plantas em forma de mãos e fizemos questão de ficarmos longe o suficiente para que não agarrassem nossos tornozelos. A SUV de Kieffer apareceu alguns minutos depois. Spencer a dirigia. Kieffer e ele saírem sem dizer nada, nos olharam de cima a baixo e abriram a traseira do veículo.

Carlos abriu seu porta-malas.

Kieffer e eu nos encaramos, continuando a nos entreolharmos enquanto Carlos e Spencer moviam o corpo de um carro para o outro. Spencer tinha uma lona e um cobertor prontos para embrulhar o corpo. Quando acabou, Kieffer colocou uma mão no meu ombro e sussurrou: “você agiu bem”.

Então eles foram embora. Carlos começou a chorar quando eu entrei na loja de conveniência. Era quase dia e é quando o próximo funcionário de meio período chega para assumir seu posto.

 

8:00 – O novo funcionário está atrasado e já passou da hora do meu almoço. Aproveitei minha hora extra aqui para colocar preço nos gnomos. Estão expostos como “mercadoria variada” por $9,99 cada, e já vendi dois. Sou um ótimo funcionário mesmo.

 

8:30 – Fui ao banheiro e vi um homem parado lá, com seu jeans abaixados. Ele usava uma cueca tipo boxer com quadrados vermelhos e brancos e um chapéu de cowboy. Sorriu quando me viu e disse cantarolando: “Venha, homem. Vaaamos com isso”.

Aproveitei para perguntá-lo algo que vem me incomodando.

– Você sabe se vai ficar tudo bem?

O cowboy do banheiro pensou por um segundo, então vestiu sua calça, afivelou seu cinto gigante e passou do meu lado, as esporas fazendo barulho contra o azulejo do banheiro. Ele parou por um instante quando estava bem do meu lado e disse nitidamente: “Agradeço”. E foi embora.

Realmente não faço ideia do que isso signifique.

 

Esses são todos os recibos, mas decidi continuar a fazer um diário. Acho que sera um bom jeito de contar os eventos estranhos que acontecem no posto de gasolina. Talvez isso ajude com minha condição, sei lá. Da próxima vez que algo estranho acontecer, talvez eu volte e escreva mais. Até lá, aguardem cenas dos próximos capítulos…

 

Observações: Desculpem, após inspeção adicional, percebi que algumas das notas nos recibos podem ter sido transcritas de forma errada. Também fiz alguns ajustes em erros de ortografia e arrumei alguns erros de digitação. Enquanto fazia isso, coloquei novos erros para os leitores mais atentos. Por fim, por meio de conselhos de alguns dos meus leitores, tirei a parte em que divulguei o número do documento de identidade e o endereço do Fazendeiro Júnior. Além disso, um agradecimento especial ao leitor que disse que “Strega” não é uma palavra em espanhol. Perguntou ao Carlos sobre isso quando ele apareceu para o seu quarto turno do dia, mas Carlos só me olhou sem entender e disse que ele não fala espanhol.

 

Chamada: Marlboro é o melhor personagem e – alerta de spoiler – ainda vamos vê-lo muitas vezes. Porque as coisas podem ficar ainda mais estranhas com ele está por perto.

Nerd: Nathalia Lossolli

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