Caminhos da Memória | Crítica: sci-fi noir perde chance de ser referência no gênero

Caminhos da Memória se passa em um futuro próximo, onde a droga do momento se chama baca, em meio a cidades semi-inundadas pelo aumento do nível do oceano. É neste cenário que Nick Bannister (Hugh Jackman) deve enfrentar sua jornada para descobrir o que aconteceu com sua amante desaparecida, Mae (Rebecca Ferguson).

No processo ele vagueia pelas ruas de Miami e Nova Orleans. Esta segunda é o lar de um gangster chinês-americano chamado Saint Joe (Daniel Wu). Saint Joe construiu um mini-império com a baca e corrompeu alguns policiais sujos no caminho, mas ele é apenas o vilão secundário da história.

Tanto Joe quanto Nick são sobreviventes de uma guerra, provavelmente em lados opostos, que colidiu após a inundação do mundo, mas cujos elementos são deixados vagos. Esta falta de informações, prejudicam a história. Todos os detalhes provocantes do encontro os dois são jogados fora, como se o tiroteio que se segue fosse mais interessante.

Caminhos da Memória - Hugh Jackman

É aí que está o erro de Caminhos da Memória: um filme cheio de conceitos promissores que não são explorados, porque é dedicado a um mistério romântico que nunca é muito romântico ou misterioso.

Parece que já vi isso antes

Alguns desses conceitos são familiares e explorados em produções anteriores: a tecnologia em que Nick se especializou, na qual um sujeito revive memórias que são simultaneamente projetadas em uma tela ou fios holográficos, lembra Estranhos Prazeres ou Violação de Privacidade. Enquanto os estilos de ficção científica noir podem trazer à mente Cidade das Sombras (eu pensei muito no jogo L.A Noire).

A maneira como os ricos vivem em sua luxuosa comunidade fechada, habitando terras secas que são mantidas pelo bombeamento de água para os bairros mais pobres e o conceito de cidades costeiras sendo transformadas em versões de Veneza pelas mudanças climáticas também não é novo. A diretora, Lisa Joy, mostra isso de forma tão bela na tela que parece um desperdício quando o filme não não se concentra mais nisso. Uma Miami que permanece iluminada por neon em face da inundação, edifícios parcialmente submersos, mas ainda habitados, residentes deslizando em botes pelo que costumava ser South Beach e saindo à noite para evitar o calor diurno.

A base de Caminhos da Memória

Nick e sua amiga de guerra Watts (Thandiwe Newton), entraram no ramo como interrogadores durante a guerra, e trabalham com a promotoria quando chamados para arrancar informações das lembranças de suspeitos e testemunhas. Porém, na maioria das vezes seus clientes são apenas pessoas normais que desejam reviver dias melhores. É então que conhecemos Mae, fazendo uma entrada dramática e pedindo ajuda para encontrar suas chaves, deixando Nick instantaneamente apaixonado.

Caminhos da Memória - Watts e Nick

É através da própria tecnologia de Nick que descobrimos que ela é uma cantora em uma boate e como o relacionamento acabou. Depois de alguns meses juntos, Mae esvaziou seu apartamento e desapareceu sem deixar vestígios.

Mas para basear um mistério em torno de um relacionamento, pressupõe-se que os espectadores desenvolvam pelo menos algum grau de interesse nesse relacionamento. Mas Caminhos da Memória é incapaz de dar um motivo para o domínio de Mae sobre Nick, ou para o próprio Nick como protagonista.

Hugh Jackman e Rebecca Ferguson

A princípio fiquei encantado pelo reencontro entre Fergunson e e Jackman, visto que eu assisti O Rei do Show há menos de 1 semana. Como Mae é vista quase inteiramente através das lentes nebulosas da memória idealizada e imperfeita de Nick, é plausível não a conhecermos tão bem. Mas não há escuridão real para Nick, nada perturbador sobre sua obsessão. Ele cita o mito de Orfeu e Eurídice, mas ao invés de grandiosamente trágico, o arco remendado de seu relacionamento é simplesmente previsível.

Mae e Nick
REMINISCENCE (L-r) REBECCA FERGUSON como Mae e HUGH JACKMAN como Nick Bannister

O filme parece preso em suas próprias influências, por seu compromisso obstinado com seu gênero de uma história principal. Apesar de todos os elementos interessantes que passam na periferia, tais como os detalhes da vida cotidiana em um cidade semi-submersa, ou os alvos dessa internação, ou as ramificações da tecnologia da memória.

Caminhos da Memória é ainda mais frustrante por sua promessa desperdiçada e pela maneira como entrega o seu melhor material. Quando seus personagens principais são tão monótonos e sem vida, por que ficar com eles, especialmente quando você tem outras coisas em que se concentrar?

Leia “O Esquadrão Suicida de James Gunn é o que a DC MERECIA | Crítica

Confira todos os meus posts no site clicando aqui. E não esquece de seguir o Universo 42 nas redes sociais:

Instagram YouTube Facebook

Nerd: Carlos Carvalho

Apaixonado por Criatividade, Inovação e Criação de Conteúdo. Desde pequeno, eu já fazia listas dos filmes que assistia, criava teorias, jogava RPG e opinava sobre tudo. Em 2012, criei a GOTBR, uma fan page sobre Game of Thrones que acabou abrindo portas para o nascimento do Universo 42, um ano depois, com um grupo de malucos que acreditou nas minhas ideias. Foram mais de cinco anos como Líder de Estratégias Criativas na SKY, e depois assumi o cargo de Gerente de Marketing Global na CMON, uma das maiores empresas de jogos de tabuleiro do mundo. Hoje sigo envolvido em projetos que unem tudo o que mais amo: criatividade, narrativas, cultura pop e estratégia de conteúdo.

Share This Post On