Chega aos cinemas na próxima quinta-feira, dia 23 de janeiro, Anora. O longa, dirigido e escrito por Sean Baker (Projeto Flórida), é uma ousada reflexão sobre uma dinâmica há muito conhecida, a de que quem tem mais manda, e quem não tem obedece. Onde “amor” é uma palavra abstrata, facilmente condensada entre um maço de notas e outro. Um aviso aos que pensam em Anora como o novo Uma Linda Mulher: não há romance aqui, ainda que tenha, sim, uma boa dose de comédia. O caso é que, apesar das notórias referências, os dois filmes são antítese um do outro. Mas isso não diminui, de forma alguma, o seu valor e qualidade.
Anora é um conto de fadas subvertido
Stripper e garota de programa, Anora, que prefere ser chamada de Ani, vê seu destino mudar quando é designada pelo seu chefe para atender um cliente russo. Ivan/Vanya é o jovem herdeiro de um poderoso oligarca e está prestes a voltar para a Rússia para assumir os negócios da família. Porém, Ivan não apenas é imaturo demais para qualquer responsabilidade, como também é inconsequente. Encantado com Anora, ele propõe que ela seja exclusivamente dele pela próxima semana. E diferente de Uma Linda Mulher, Ani não barateia.
As coisas começam a sair do controle quando, durante uma viagem a Las Vegas, eles decidem se casar impulsivamente na Little White Chapel. Para Ivan, o casamento é uma maneira de evitar as responsabilidades que o aguardavam na Rússia e, para Ani, uma oportunidade de ascender socialmente. Mas não se engane, o “amor” dos dois nada mais é do que o interesse de Ivan pelo bom e fácil sexo proporcionado por Ani, enquanto o dela é o passaporte para a vida que o dinheiro poderia proporcioná-la.
Mas nenhuma dessas coisas compactuava com os desejos dos pais, que ficam sabendo do ocorrido e enviam seus capangas para resolver o “problema”. Confesso que, por um breve momento, imaginei que o filme fosse tomar um caminho mais voltado para o thriller, mas me deparei com uma comédia satírica que funciona bem em grande parte do tempo. Com diálogos ágeis e uma atmosfera caótica, Anora segue um caminho de constante confronto. Seja contra os homens que trabalham para os pais de Ivan, contra a iminência de perder seu conto de fadas, contra o preconceito ou contra suas crenças.

Anora traz personagens complexos e atuações marcantes
Mikey Madison vem numa ótima crescente com seus trabalhos. Em Era uma Vez em Hollywood e Pânico V já mostraram que a atriz tinha potencial para muito. Como Anora, ela está soberba, entregando não só um excelente trabalho de corpo, como também uma atuação com nuances que dizem mais do que as palavras do script. Sua Ani é ingênua, ainda que seja dona de si, profundamente enraizada na crença de que nenhum gesto de gentileza é realizado sem que algo em troca seja exigido. E para ela, esse algo geralmente é sexo.
Mais velha que Ivan, Ani logo percebe que o garoto perde em experiência, permitindo que ela desfrute do brilho fugaz da superioridade. A ideia de que ela poderia ter algum controle sobre ele cai por terra quando os capangas dos sogros batem à porta. A partir daí, o filme trata paulatinamente de temas como luta de classes, a invisibilidade das garotas de programa e a impotência diante de figuras poderosas.
Mark Eydelshteyn também está ótimo no papel de Ivan/Vanya. Um jovem inconsequente, sem o mínimo de responsabilidade e totalmente imaturo. Sem conhecer limites, ele usa de seu poder e dinheiro para realizar todos os caprichos que lhe der na telha. E isso inclui pagar pela companhia de pessoas que enxergam apenas um cifrão diante delas. Sua percepção de poder passa por cima de sentimentos e racionalidades. O que importa é que seja divertido para ele, mesmo que a vida de alguém esteja em jogo. Infelizmente o mundo está cheio de Ivans.
Mais jovem que Anora, sua imaturidade vai desde a falta de experiência no sexo, até as decisões impulsivas que toma apenas porque pode e lhe convém. No entanto, ao perceber que os pais virão pessoalmente para resolver mais um problema criado por ele, toda sua pose se desarma e só sobra um garoto infantil que não teve qualquer tipo de limite imposto em sua vida.
A comédia em meio ao caos
Mas é o trio de capangas que traz o humor para o filme. Karren Karagulian (Projeto Flórida) como Toros, Vache Tovmasyan como Garnik e Yura Borisov (Cidade de Gelo) como Igor, são os responsáveis por arrancar risadas sinceras com suas cenas estapafúrdias. Mas é Yura que recebe minha atenção. Igor é um personagem contido, que tem poucas falas, mas muitos olhares e expressões. Ele representa o público, que se sensibiliza, torce, acha graça e se preocupa com Ani. Igor a enxerga.
Com 23 anos, Anora acredita que qualquer homem a procura apenas pelo que seu corpo pode oferecer. Então, quando ela se depara com alguém que a vê como pessoa e não como um problema a ser resolvido, ou uma vergonha que precisa ser acobertada, ela não sabe como agir sem ser na defensiva.
Uma visão fatalista das relações de poder
Escrito e dirigido por Sean Baker, Anora tem um roteiro afiado e que não tem medo de embarcar nas referências ao clássico Uma Linda Mulher. Mas o clima romântico, de fato, nunca esteve presente. E, apesar da comédia, Anora traz uma visão fatalista das relações de poder, deixando um gosto amargo quando os créditos sobem. Sean, inevitavelmente, obriga o espectador a refletir sobre as vulnerabilidades da protagonista.
Desconstrução do conto de fadas
Com atuações notáveis, Anora desconstrói o conto da Cinderela em prol de uma visão mais crua sobre as relações humanas e as convenções e desigualdades sociais. Com uma fotografia de tirar o fôlego e uma direção competente, Anora é mais do que uma comédia satírica, é um convite à reflexão. Um retrato impetuoso e honesto da realidade.
Anora estreia nos cinemas nacionais dia 23 de janeiro.
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