Um clássico cult é um clássico cult : Angel’s Egg (Tenshi no Tamago) é exatamente esse tipo de obra rara que atravessa décadas e permanece intrigante. No dia 20 de novembro, este anime chega aos cinemas pela primeira vez em uma versão remasterizada em 4K. Um trabalho essencial para preservar e revitalizar títulos que marcaram a história da sétima arte.
Dois nomes japoneses de grande renome e sua trama
Em 1985, o diretor e roteirista Mamoru Oshii, que dez anos depois nos entregaria Ghost in the Shell, uniu forças com o animador e também roteirista Yoshitaka Amano, que futuramente se tornaria um nome altamente celebrado na franquia de games Final Fantasy. Juntos, eles criaram este anime experimental misterioso, meio fantasia, meio ficção científica, construído dentro de um profundo contexto religioso.
Na trama de Angel’s Egg, acompanhamos uma menina sem nome que protege um ovo enigmático enquanto vaga por uma cidade gótica, deserta e melancólica. Este é um cenário escuro, onde ela e seu ovo se fazem luz, dentro de um mundo esquecido. Eles estão sós até a chegada de um homem também sem nome, cuja presença não sabemos se irá ajudá-la ou ameaçá-la. Ambos não lembram de onde vieram e para onde irão.

A animação impressiona pelo estupendo jogo de luzes e sombras, que transforma cada quadro em uma pintura e reforça o tom onírico e inquietante da história. A direção de arte se destaca por paisagens detalhadas e sombrias, uma paleta de cores contida em azul, cinza, preto e branco, e com algum vermelho.
Vale demais ficar pensando sobre ele
Angel’s Egg é profundamente contemplativo: há muitos planos longos, alguns quase estáticos, e pouquíssimos diálogos. É como se o próprio Mamoru Oshii estivesse convidando o espectador a permanecer ali, em silêncio, respirando o mesmo tempo que os personagens. Uma obra que não que não explica quase nada, pelo contrário, nos conduz a pensar, interpretar e questionar o que está acontecendo e até onde, afinal, eles estão. Não espere respostas claras, mas dúvidas, reflexões e muitas analogias. É aquele tipo de produção que realmente pede para você deixar o celular de lado e simplesmente prestar atenção, entregando-se ao ritmo lento porém hipnotizante da experiência.

Uma obra experimental com muitas analogias
O anime nasce daquilo que chamamos de arte experimental: uma forma de criação que não segue as regras tradicionais de narrativa, ritmo ou explicação. É o tipo de obra que entende que nem tudo precisa fazer sentido, mas precisa fazer sentir. E esse sentimento aqui é profundamente espiritual, já que o filme é repleto de símbolos religiosos, muitos deles associados ao cristianismo.
O próprio ovo, por exemplo, pode ser relacionado ao símbolo da Páscoa, onde representa renascimento, fé e esperança. Os peixes que aparecem ao longo da história remetem ao antigo símbolo cristão do grego ichthys. Já a água, que a menina coleciona em garrafas, reforça a ideia de purificação, vida e memória. Há até uma espada em forma de cruz, curativos localizados onde estavam as chagas de Jesus e diversas estátuas que lembram os santos. É como se todo aquele cenário abandonado ainda guardasse ecos de um mundo devoto, agora vazio, mas carregado de significados.

A nova versão da Arca de Noé de Angel’s Egg
Todavia, talvez a analogia mais evidente de Angel’s Egg seja a da Arca de Noé. A Bíblia conta que Deus enviou um dilúvio para purificar o mundo da degradação humana, poupando apenas Noé, sua família e alguns animais, que foram protegidos dentro da arca. Após quarenta dias e quarenta noites, a tempestade cessa e eles soltam uma pomba que lhes sinalizariam que as águas estavam baixando, que havia terra à vista e que a vida recomeçaria.
No anime, essa narrativa aparece em um longo diálogo entre os personagens, porém de uma forma distorcida, já que parece sugerir um cenário pós-apocalíptico e pessimista, uma vez que nesta versão a pomba nunca retornou. É como se o mundo tivesse sido abandonado após a tempestade, restando apenas ruínas e sombras de um passado. Nem memórias aquele mundo possui mais.
Dito isso, quando o homem revela o contexto da Arca de Noé, surge a possibilidade de que aquela dupla esteja dentro desta arca perdida, cercados por fósseis e vestígios de um tempo há muito esquecido. Entre ruínas, o filme ganha sua cena mais impactante: o momento em que a menina mostra ao homem um pássaro fossilizado, revelando finalmente por que a obra se chama Ovo do Anjo, na tradução livre para o português.

Era um momento de crise do diretor?
Porém, nem o próprio Mamoru Oshii afirma com certeza o que Angel’s Egg significa, se mantendo esquivo sobre a mensagem da obra. Há quem diga que ele estava passando por uma crise de fé, algumas fontes dizem até que ele considerou entrar num seminário. No entanto, é importante frisar que ele não era cristão praticante, apenas alguém fascinado pela filosofia bíblica. Ele ainda afirmava que lia a Bíblia desde os tempos de estudante por curiosidade intelectual, não por devoção religiosa. Assim, este mistério pessoal reforça o caráter aberto do filme: cada um pode interpretar a obra à sua maneira, trazendo suas próprias crenças, dúvidas e interpretações para o universo simbólico e espiritual criado por ele.
A narrativa não parece falar sobre a perda da fé, mas sobre os perigos de uma fé cega, estática, mantida durante muito tempo. E é quando essa fé se rompe (ou quando a menina é libertada dela) que ocorre um renascimento simbólico: inúmeros ovos emergem, como se uma nova possibilidade de existência finalmente ganhasse forma.

Vale mesmo à pena conferir este clássico?
No fim das contas, Angel’s Egg permanece como uma daquelas obras raras que continuam vivas justamente porque recusam qualquer explicação definitiva. Seu silêncio, seus símbolos e sua atmosfera onírica (ou de pesadelo?) abrem espaço para interpretações quase infinitas. A produção convida cada espectador a encontrar seu próprio significado dentro daquele mundo esquecido. E talvez seja exatamente por isso que esse filme ainda nos fascina: porque nos permite pensar, duvidar, sentir e discutir. Como é bom que existam obras como Angel’s Egg, que nos lembram do poder da arte em provocar perguntas que jamais se fecham.

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