Amores Materialistas, novo filme da diretora e roteirista indicada ao Oscar Celine Song (aclamada por seu sensível trabalho em Vidas Passadas), estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 31 de julho. Apesar da divulgação ter flertado com o rótulo de comédia romântica, o longa está longe de seguir os caminhos convencionais do gênero. Tampouco se trata de um drama denso. O que Celine propõe aqui é algo mais fluido: um retrato provocativo (às vezes desconfortável) sobre os vínculos afetivos, o amor e o poder. E por mais que o pano de fundo remeta a dinâmicas contemporâneas de uma classe social alta, talvez os dilemas que ecoam na tela sejam bem mais antigos e abrangentes do que imaginamos.
A trama acompanha um triângulo amoroso, protagonizado por Dakota Johnson como Lucy, uma casamenteira profissional em Nova York. Ela se vê dividida entre John (Chris Evans), seu ex-namorado que trabalha como garçom e é aspirante a ator em pequenos teatros off‑Broadway, e Harry (Pedro Pascal), um bem-sucedido gestor de Private Equity, milionário e irmão do noivo de uma cliente de Lucy. Assim, somos confrontados com uma questão: no amor, o que pesa mais? A segurança de um futuro confortável ou o afeto profundo?

Assim como fez em Vidas Passadas, onde se inspirou em sua própria trajetória ao deixar a Coreia do Sul para viver no Canadá e depois em Nova York, Celine Song volta a recorrer à sua vivência pessoal em Amores Materialistas. Antes de se consolidar como dramaturga e cineasta, ela trabalhou durante seis meses como casamenteira profissional em Nova York, em meados da década de 2010, enquanto precisava pagar os boletos. Essa experiência direta com os bastidores do mercado do amor, onde relacionamentos são frequentemente filtrados por critérios como status, aparência e estabilidade financeira, serve de base para a trama do filme. Ao trazer essa bagagem para o roteiro, a diretora confere autenticidade à história, tornando-a não apenas mais verossímil, mas também mais íntima e crítica.
O amor aqui é retratado como algo que poderia ser escolhido, planejado, quase como um produto em prateleira, em um roteiro franco, honesto e até cínico, talvez pouco comum no cinema. Celine Song apresenta os relacionamentos como escolhas conscientes (e muitas vezes estratégicas) feitas por pessoas que estão tentando equilibrar desejo, segurança e viabilidade prática.

O filme levanta questões morais importantes: por que nos relacionamos com quem nos relacionamos? Nem sempre estamos com alguém pelos motivos mais altruístas, e isso não necessariamente tem a ver com dinheiro. Pode ser conforto emocional, medo de estar só, conveniência, ou simplesmente porque aquela pessoa faz sentido dentro de um plano de vida. Há sempre um motivo por trás de uma relação, e o longa nos convida a olhar para isso com honestidade. Sem julgar seus personagens, Celine propõe uma reflexão sutil e incômoda sobre o que realmente está em jogo quando escolhemos alguém.
Amores Materialistas pinta um retrato certeiro do que pode ser considerado o par perfeito para os dias atuais, um padrão que envolve muito mais do que apenas sentimentos, incluindo critérios objetivos e até preconceitos, como o etarismo. No filme, os personagens parecem estar presos a caixinhas a serem preenchidas, questionando o quanto detalhes específicos realmente são importantes e, sim, quem viu o filme vai entender minha menção a “se 15 centímetros realmente fazem diferença”, sem nenhum mal-entendido.

A trama tem como base a classe alta de Nova York, afinal, são eles que têm condições de pagar pelos serviços da empresa Adore, especializada em casamentos sob medida e conexões românticas estratégicas, mas a crítica é para todos.
O roteiro não deixa de apontar como o capitalismo se infiltra também nas decisões amorosas, transformando escolhas afetivas em uma espécie de investimento ou troca. Não que essa busca pela segurança não exista em outros cenários, mas em Amores Materialistas isso ganha um peso enorme. Embora a história se passe em Nova York, a reflexão sobre o amor moderno e suas exigências poderia facilmente se aplicar a outras grandes cidades do mundo, incluindo as brasileiras.
Uma curiosidade interessante é o uso da palavra dote no roteiro, um termo carregado de tradições antigas que dialoga diretamente com essas dinâmicas atuais, mostrando como o passado ainda influencia o presente das relações.
Embora Vidas Passadas seja um filme mais forte e emocionalmente impactante, Amores Materialistas mantém seu valor ao provocar reflexões importantes sobre relacionamentos nos dias de hoje. O longa abre espaço para questionarmos como o casamento, em diferentes épocas e culturas, já foi (e muitas vezes ainda é) tratado como um negócio ou uma aliança estratégica, e não apenas como uma união baseada no amor romântico.
A questão que Celine Song coloca é universal: se, afinal, o casamento deveria ser com aquela pessoa com quem realmente desejamos envelhecer, compartilhando uma vida inteira, até nos tornarmos “cadáveres juntos”. Esse pensamento ressoa como um lembrete poderoso sobre o significado mais profundo de compromisso e companheirismo.
Apesar da força do roteiro e da relevância dos debates trazidos, as atuações do trio principal ficaram a desejar para mim. Não que Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal façam performances ruins, longe disso, mas pareceram repetir padrões e entregar estilos de interpretação bastante semelhantes de seus trabalhos anteriores.
Talvez outros atores pudessem elevar a carga emocional a um nível mais profundo e impactante. Senti ainda falta de química entre os casais na tela. Diferente da cena marcante na barra do metrô em Vidas Passadas, aqui nenhuma interação chegou a fazer sequer cosquinhas no meu coração. O texto e o debate são bons, acabam segurando o filme com competência, mas o filme poderia ter um ritmo melhor.

Voltando a um ponto positivo, Amores Materialistas se afasta das comédias românticas tradicionais que muitas vezes recorrem a personagens caricatos e estereotipados, algo que definitivamente não acontece aqui. Assim como em Vidas Passadas, não há grandes vilões no filme, apenas pessoas lidando com a complexidade da vida e das relações sociais. Há sim, um , mas apenas ouvimos a sua voz e algumas menções,
Um aspecto visual que achei particularmente interessante foi a escolha da direção em usar cenas com muitos reflexos, seja através de vidros ou espelhos. Essa estética levanta perguntas sobre identidade: será que aquele é o eu verdadeiro daquela pessoa? Está ela mostrando sua face autêntica ou apenas a maquiagem social que escolheu usar?
Não sei se Celine Song chega exatamente a desconstruir o gênero da comédia romântica, mas é inegável que ela escapa de muitos de seus clichês mais comuns, como as situações exageradas, os diálogos voltados apenas para o humor ou os arcos excessivamente previsíveis. Amores Materialistas é um filme que foge do óbvio e propõe um olhar mais maduro, realista e até incômodo sobre os relacionamentos modernos.
No entanto, por mais que o texto seja afiado e a direção elegante, a falta de atuações realmente marcantes impede que o longa atinja um patamar mais elevado. O resultado é um filme bom e relevante, mas que, ao contrário de Vidas Passadas, não consegue se sobressair de forma duradoura. Ainda assim, reafirma Celine Song como uma autora sensível e inteligente, capaz de transformar suas experiências pessoais em narrativas universais.
PS: Louisa Jacobson faz apenas uma ponta em Amores Materialistas, mas está fantástica. Mais pessoas deveriam conhecê-la! Pra quem quiser ver mais do trabalho dela, ela também brilha na série The Gilded Age. Ah, e sim… ela é filha da Meryl Streep! Filha de peixe!
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