Hollywood nos ensinou (ou talvez nos tenha enganado) a acreditar que fazer o certo e manter a honra e a integridade nos transforma automaticamente em heróis, recompensados no final com uma vitória dura, porém garantida. A ideia de que a justiça sempre prevalece.
No entanto, basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que isso não é exatamente verdade nem nos Estados Unidos. Muito menos quando deslocamos esse tipo de narrativa para realidades como a da União Soviética, onde as regras do jogo e o poder operam sob outra lógica.
Dois Procuradores, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 05 de fevereiro, nos mostra como a corrupção estava encravada no sistema soviético. Ao fazer disso o centro da sua narrativa, acabou chamando a atenção no circuito internacional. O filme teve uma trajetória de destaque em festivais. Concorreu à Palma de Ouro em Cannes no ano passado e também passou pelo Festival de Toronto e pelo Festival do Rio.
A sinopse
Em 1937, durante os Grandes Expurgos de Stalin, período marcado por prisões em massa, perseguições políticas e eliminação de supostos inimigos do Estado, destruíam-se cartas de prisioneiros implorando por inocência nas prisões soviéticas. É nesse contexto que uma dessas cartas, enviada por um membro do partido injustamente preso, chega às mãos de um jovem e idealista promotor. Ao tentar reabrir o caso, ele se depara com o medo, o silêncio e a burocracia de um sistema desenhado para deixar as coisas como estão.

Inspirado em fatos
Escrito, produzido e dirigido por Sergey Loznitsa, Dois Procuradores é baseado em um livro do físico e engenheiro Georgy Demidov, que viveu pessoalmente a repressão soviética. Preso durante uma campanha contra os chamados inimigos do povo, Demidov passou catorze anos no sistema de campos de trabalho forçado. Essa experiência que dá peso e autenticidade ao que o filme coloca em cena.
Dessa forma, Dois Procuradores se constrói como um filme profundamente opressor. Parece não haver liberdade para nenhum dos lados, nem mesmo a liberdade de ajudar uma colega a recolher algumas folhas que caíram no chão. Há muita tensão nas conversas, como se algo pudesse dar errado ao menor sinal de uma vírgula fora do lugar.

E tecnicamente?
Tecnicamente, o longa ainda reforça essa sensação de sufocamento com uma paleta de cores dessaturada, quase próxima do cinza, e com o uso da proporção claustrofóbica de tela 4:3. Ao mesmo tempo, é um filme belissimamente bem filmado. Sua Mise En Scène é muito bem estruturada, que organiza os cenários e o design de produção de maneira precisa e coerente com essa atmosfera arbitrária.

Mesmo elegante, Dois Procuradores adota um ritmo que passa sem pressa, algo que pode incomodar alguns espectadores. Ainda assim, essa escolha parece existir justamente para que se sinta como seria estar preso àquele espaço e àquele tempo. Por exemplo, o procurador espera por um encontro com o diretor da prisão durante muito tempo. A proposta da produção é que o espectador espere junto com ele, enquanto vai sendo conduzido a conhecer melhor aquele ambiente inóspito.

Dois Procuradores Vale a pipoca?
No fim, Dois Procuradores se mostra uma obra que soube transmitir com precisão a ideia da burocracia na tela. Não é apenas um conjunto de regras, mas uma forma de violência institucional e de sistema opressivo. Tudo ali, dos espaços ao ritmo, dos silêncios aos procedimentos, reforça como esse mecanismo é capaz de dominar, confundir e, sobretudo, desumanizar as pessoas. Isso acaba por transformar a busca por justiça em um caminho quase impossível dentro de um sistema feito para se manter intacto.
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