Entre os filmes favoritos ao Oscar deste ano, Hamnet surge como uma poderosa tragédia espiritual dirigida por Chloé Zhao, conhecida por Nomadland e Eternos. Neste projeto, Zhao entrega uma obra que dialoga profundamente com a tradição shakesperiana, resultando em uma experiência cinematográfica tão íntima quanto devastadora.
A história acompanha William Shakespeare e sua esposa Agnes (Anne) celebrando o nascimento do filho Hamnet. Entretanto, após a morte prematura do menino, Shakespeare transfigura essa dor na criação de Hamlet, uma de suas obras mais importantes e eternas.
Da tragédia à criação: Hamnet como origem de Hamlet
Adaptar ou dialogar com Shakespeare nunca é uma tarefa simples; pelo contrário, pode ser ingrata e arriscada. Ainda assim, Zhao demonstra grande domínio ao captar o que inspirou a peça Hamlet, sem se limitar a copiar estruturas, textos ou iconografias. Em vez disso, ela mergulha na gênese do luto, estruturando o filme a partir da intimidade emocional e da subjetividade, e não apenas da historiografia.

A diretora situa a tragédia em 1596, conduzindo a narrativa pelos olhos de Anne, interpretada magistralmente por Jessie Buckley. Sua performance é crua, dolorosa e comovente. Buckley parece carregar um oceano represado no olhar, transmitindo uma tristeza silenciosa que nunca cai no melodrama. Além disso, ela se torna o centro emocional do longa; seu sofrimento molda o filme, e o espectador acompanha sua lenta tentativa de reconstrução.
Performances e nuances familiares em Hamnet
No polo oposto, Paul Mescal, como Shakespeare, adota uma abordagem mais contida e mecânica. Essa rigidez, porém, faz com que sua perfomance seja fraca e apática e sendo totalmente esquecida principalmente se comparada a sua companheira de cena.
Ao mesmo tempo, Noah Jupe e Jacobi Jupe brilham interpretando Hamlet, entregando variações sensíveis de um mesmo personagem, criando camadas que evitam reduzi-lo apenas à condição de mártir da trama.

A construção sensorial de Chloé Zhao
Zhao orquestra a obra com precisão. Ela permite que cada cena respire e, sobretudo, que cada lágrima tenha peso. Sua direção traduz o devastador luto familiar em imagens que exaltam silêncio, natureza, memória e ausência. Além disso, o roteiro equilibra poesia e brutalidade emocional, comprovando seu absoluto controle dramático.
Hamnet se consolida como um dos melhores filmes do ano e facilmente entra no top 3 de muitos espectadores. É um filme sensível, belo e espiritual, que ressignifica uma tragédia shakesperiana por meio de uma lente íntima que poucos cineastas seriam capazes de manejar.
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