Livros Restantes, dirigido por Márcia Paraíso, dialoga diretamente com questões muito concretas da experiência humana, especialmente aquelas ligadas à memória, ao afeto e às marcas deixadas pelas relações ao longo do tempo. E uma produção que convida seu espectador a refletir sobre o que permanece depois que certas histórias já foram vividas.
A sinopse
Ancorado em uma atuação delicada e fascinante de Denise Fraga, Livros Restantes nos apresenta a Ana Catarina. Ela é uma mulher com mais de 50 anos que viveu praticamente toda sua vida em Barra da Lagoa, uma pequena comunidade pesqueira em Florianópolis. Ali vive com sua família: a mãe Antônia (Vanderléia Will), o irmão Sérgio (Renato Turnes), o ex-marido Carlos Henrique (Augusto Madeira) e a filha Sofia (Manuela Campagna). Só que Ana Catarina está a um mês de uma mudança definitiva para Portugal.
Nos dias que antecedem esta partida, Ana precisa se desapegar de seus últimos bens: cinco livros permanecerem na estante, carregados de dedicatórias e lembranças. É a partir deste momento que vem a decisão de devolvê-los a quem a presenteou.

A importância das dedicatórias
Assim, Livros Restantes segue o seu percurso a partir desses reencontros, que nunca são simples ou neutros. Cada devolução carrega uma reação diferente: há quem não queira aquele tempo de volta, quem deseje revivê-lo e quem o queira, mas de uma maneira torta, mal resolvida. Assim, ele se afirma então como um filme sobre memórias, não apenas as que aquecem, mas também as que pesam.
As dedicatórias transformam cada livro em algo que vai além do objeto: eles passam a representar momentos específicos da vida da nossa protagonista. Ao revisitar essas pessoas, os encontros despertam lembranças profundas e a obrigam a olhar para o próprio passado, para só então conseguir seguir em frente.
O roteiro é construído com cuidado, revelando quem foi Ana Catarina através dessas relações: aprendemos sobre seus romances, seu casamento, suas amizades e, aos poucos, sobre os vínculos familiares que ajudaram a moldar quem ela é agora.

Uma ótima safra sobre Etarismo
É também impossível ignorar como Livros Restantes se insere em uma safra recente e bem-vinda de filmes com protagonistas mulheres acima dos 50 anos. O longa oferece um olhar sensível e íntimo sobre uma fase da vida em que muitas mulheres deixam de ser enxergadas pela sociedade.
Em entrevistas, Denise Fraga comentou que podemos ser o que quisermos, mas que isso exige um ato de coragem. Essa é a ideia que atravessa o filme de forma muito clara. Porque envelhecer não significa estagnação. Não é por estarmos velhos que deixamos de buscar mudanças, e Livros Restantes se constrói justamente a partir dessa necessidade de movimento, mesmo quando ele dói ou assusta.

O feminino em Livros Restantes
Embora Livros Restantes tenha uma temática claramente feminina, isso não significa que seja um filme direcionado apenas às mulheres. Pelo contrário: o longa levanta pontos de discussão bastante atuais e universais. Aponta o assédio e o lugar da mulher na sociedade, ampliando o diálogo para além da experiência individual de sua protagonista.
Essa perspectiva ganha ainda mais força quando observamos quem está por trás das câmeras. A maior parte da equipe técnica é composta por mulheres. Além da diretora Márcia Paraíso, que também assina o roteiro a partir de um sonho que teve, o filme conta com a diretora de fotografia Kike Kreuger (responsável por uma entrega belíssima aliás), a montadora Nara Hailer, a diretora de arte Cleo Rosa e tantas outras mulheres, inclusive na gravação das canções que atravessam a narrativa.

Elenco afinadíssimo e com propósito
O elenco de Livros Restantes merece elogios pelo alto grau de naturalidade presente nos diálogos, que soam orgânicos e próximos da vida real. No centro de tudo está Denise Fraga, em uma atuação digna de prêmios. Sua construção se dá mais pelo que não é dito do que pelas falas em si. Seu trabalho é marcado por olhares carregados de significado, pelos silêncios e pela maneira como consegue expressar o desconforto constante de sua personagem diante das situações que enfrenta.
É uma performance sensível e profundamente empática, que aproxima o espectador de Ana Catarina. Até mesmo o sotaque da cultura manezinha é incorporado com cuidado e precisão por Denise, que é carioca. Isso reforça a autenticidade da personagem e sua ligação com aquele território e suas memórias.
Ainda sobre o elenco, é importante ressaltar alguns personagens contam com subtramas, não funcionando apenas como muleta para a trajetória da protagonista. Há um cuidado evidente do roteiro em oferecer a esse pano de fundo dramático espaço e densidade suficientes para que os atores trabalhem seus personagens com verdade e complexidade.

A riqueza dos livros e da arte
Nesse contexto do roteiro, Livros Restantes também fala, de maneira muito clara, sobre a riqueza da leitura: os livros não aparecem apenas como objetos simbólicos. O filme reafirma a importância da leitura (e da arte como um todo) em nossas vidas, como algo que atravessa o tempo, preserva memórias e nos ajuda a compreender quem somos e quem ainda podemos nos tornar.

Vale a pipoca?
Ao final, Livros Restantes se revela um filme que aposta em um ritmo mais lento. No entanto, ele dialoga diretamente com sua proposta e com o tempo necessário para que as reflexões apresentadas se acomodem no espectador. Márcia Paraíso constrói uma obra que entende que certas memórias, afetos e escolhas não podem ser apressados, assim como os processos de despedida e recomeço.
Sustentado por um roteiro sensível, um elenco afinado e uma protagonista que carrega o filme com extrema humanidade, este longa deixa claro que seguir em frente não significa apagar o passado, mas aprender a olhar para ele com honestidade.
Livros Restantes estreou dia 11 de dezembro de 2025 nos cinemas, uma coprodução Brasil–Portugal.
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