Imagine que completar 60 anos não seja um ponto final, mas o início de um conflito silencioso entre quem você é, quem o mundo espera que você seja e quem você ainda deseja se tornar. E imagine se você ainda é mulher.
Sexa parte exatamente desse lugar: acompanha Bárbara (Glória Pires), uma mulher vibrante, espirituosa e inquieta, que acaba de atravessar essa marca simbólica da idade enquanto luta contra o medo de envelhecer. Revisora de textos, ela divide sua rotina entre o trabalho e as conversas afiadas com a melhor amiga e vizinha, Cristina (Isabel Fillardis), cúmplice de confidências, risadas e frustrações. A aparente estabilidade é abalada quando Bárbara se envolve com Davi (Thiago Martins), 25 anos mais jovem.
Assim, surge não é apenas um romance, mas um dilema emocional: viver intensamente esse novo amor ou sucumbir aos receios, aos julgamentos e às regras não escritas que insistem em limitar o desejo feminino com o passar do tempo.
A estreia de um ícone na direção
Sexa marca a estreia de Glória Pires na direção, refletindo um olhar afetuoso e consciente sobre a história que quer contar. A produção assume o formato de uma comédia romântica gostosa de assistir, daquelas que aquecem o espectador. Possui um ritmo tranquilo, diálogos espirituosos e conflitos emocionais reconhecíveis. Há uma clara herança das comédias românticas dos anos 90, que ainda evoca aquela clássica vibe “Manoel Carlos no Leblon”, ainda que a trama se passe majoritariamente no Arpoador. Mas, convenhamos, a essência é praticamente a mesma.

Leve sim, mas consciente
Nesse cenário, todo o elenco está ótimo em cena, carismáticos, conduzindo um filme que entende seu tom mais leve e não tenta ser maior do que precisa. Ainda assim, Sexa não ignora questões importantes e trata o etarismo de forma direta e sensível, mesmo que com pouco desenvolvimento de seus coadjuvantes.
A narrativa opta por uma produção mais pé no chão, menos idealizada, que entende que o envelhecimento traz dilemas reais, sejam físicos, emocionais ou sociais, especialmente para as mulheres.

Há alguns poréns
Há sim muitos clichês do gênero e o filme não parece interessado em subvertê-los, utilizando-os como ferramenta para abrir espaço para debates sobre etarismo, relacionamentos com grande diferença de idade entre o casal e, sobretudo, sobre liberdade. É nessa combinação entre leveza e consciência que o longa encontra sua identidade, convidando o público a rir, se reconhecer e refletir sem peso excessivo.
Essa escolha de abraçar os clichês e a leveza também se reflete na construção dos personagens, que acabam sendo um pouco unilaterais demais, com poucas zonas cinzentas. Ainda assim, essa simplicidade casa com a proposta da produção: Sexa até flerta com a crítica social, mas está longe de querer se transformar em um drama pesado ou denso.
O filme prefere permanecer em um território confortável, acessível, onde os conflitos existem, mas nunca sufocam a narrativa. Nesse sentido, ele é assumidamente leve, inclusive mais leve do que a maioria das novelas. Parece consciente de que seu objetivo não é aprofundar cada dor, e sim provocar identificação, acolhimento e prazer na experiência de assistir.

Peca ainda na parte técnica
Tecnicamente, Sexa apresenta boas escolhas de mise-en-scène, especialmente na forma como os espaços cotidianos, com locações reais, são usados para criar intimidade e conforto. Ainda assim, fica a sensação de que um diretor de fotografia um pouco mais inspirado poderia elevar a produção em termos cinematográficos. Visualmente, o filme aposta em uma linguagem segura, funcional, que nunca atrapalha, mas também raramente surpreende.
Há ecos daquele visual televisivo como em Pequeno Dicionário Amoroso e Se Eu Você Você (com a própria Glória). Ou seja, produções que priorizam a história (simples) e os personagens acima de qualquer ousadia estética. Funciona dentro da proposta, mas deixa a impressão de que havia espaço para ir um pouco além.

Vale a pipoca?
No conjunto, Sexa se revela uma obra consciente de seus limites e de suas intenções. O filme usa os clichês como pontes para debater tabus e o desejo feminino na maturidade. Mesmo sem grandes ousadias, trata-se de uma produção honesta e com bastante empatia. Não pretende ser um retrato definitivo sobre envelhecer, amar ou recomeçar, mas um convite gentil à reflexão, embalado com leveza, humor e afeto.

Ainda sobre Sexa!
PS: Sexa estreou com uma recepção bem acolhedora no Première Brasil Hors Concours do Festival do Rio deste ano, e chegou nesta semana aos cinemas.
Outro PS: O elenco ainda conta com Danilo Mesquita, Eri Johnson, Rosamaria Murtinho, Dan Ferreira e Déa Lúcia. E vale o comentário pessoal: fazia tempo que eu não via o Eri Johnson em cena.
Mais um PS: Amei que a Glória incluiu de forma espirituosa um diálogo no filme com o icônico “não sou capaz de opinar”. Para quem não lembra, a frase virou meme depois de sua participação como comentarista do Oscar. Ela respondeu exatamente assim, criando um dos momentos mais marcantes da Cultura Pop brasileira.
Mais um outro PS: Sexa também acerta ao tocar, com leveza e ironia, na cultura do cancelamento. Um dos diálogos sugere que até Clarice Lispector poderia ser cancelada nos dias atuais, usando a provocação para refletir sobre julgamentos apressados e / ou fora de contexto.
E vem mais um PS: Confesso que cheguei a escorrer uma lágrima. A química entre Bárbara e Davi é muito forte, e o casal funciona com uma naturalidade e um afeto que tornam fácil se envolver.
Último PS: Com mais de 50 anos de carreira, construída entre o cinema e, majoritariamente, a televisão, Glória Pires carrega uma trajetória que atravessa gerações. Sua presença em Sexa, agora também atrás das câmeras, reforça não apenas sua versatilidade, mas sua importância histórica para o audiovisual brasileiro. Uma de nossas maiores artistas.

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