A série Dept. Q, lançada recentemente pela Netflix, chamou atenção pela atmosfera sombria e pela forma eficiente como conduz seu mistério. Dessa forma, não demorou para surgir a curiosidade sobre suas origens literárias, ligadas aos populares livros do dinamarquês Jussi Adler-Olsen. Com esse universo já tão presente no imaginário, Departamento Q: Sem Limites (Boundless / Den grænseløse), chegou como a oportunidade perfeita para retornar a esse mundo policial tão intrigante.
Sobre o que se trata
A trama se desdobra em uma remota ilha dinamarquesa de Bornholm. Rose (Sofie Torp) é enviada para lidar com a aposentadoria de Christian Habersaat (Peter Mygind), um antigo colega de Carl Mørck (Ulrich Thomsen). A cerimônia, no entanto, termina em tragédia quando Habersaat comete suicídio, reacendendo segredos de um passado obscuro. A partir daí, Carl, Rose e Assad (Afshin Firouzi) mergulham na investigação de um crime antigo: a morte de uma jovem que apareceu misteriosamente em cima de uma árvore, conectada a uma seita e a desaparecimentos não resolvidos.
O roteiro adapta o sexto livro da série, The Hanging Girl (que, em tradução livre, seria A Garota Pendurada), mergulhando em um lado mais psicológico dos casos arquivados do Departamento Q. A ida a Bornholm não apenas reacende uma investigação marcada por omissões, como também desperta fantasmas do passado que ainda rondam tanto Carl quanto Rose.

Whodunnit
Dentro da tradição dos bons whodunnits (subgênero que se estrutura em torno da pergunta quem cometeu o crime?), Departamento Q: Sem Limites encontra um terreno especialmente fértil. Esse tipo de história se apoia em pistas espalhadas pelo caminho, suspeitos que entram e saem do foco, e uma investigação que convida o espectador a montar o quebra-cabeça junto com os personagens.
O filme abraça bem essa lógica: cada figura naquela ilha parece esconder algo, e as revelações surgem em camadas. É esse jogo constante de dúvidas, tensões e redirecionamentos que coloca a produção confortavelmente dentro do subgênero.

Precisa assistir aos demais filmes antes?
Vale lembrar que os seis filmes dinamarqueses do Departamento Q seguem uma estrutura de histórias independentes. Isso torna perfeitamente possível assistir a este sexto capítulo sem ter visto os anteriores. Cada caso se encerra em si mesmo, permitindo que novos espectadores acompanhem a investigação sem sentir que perderam informações essenciais.
Claro, quem já conhece os filmes anteriores (ou ao menos a recente série da Netflix) terá um entendimento mais completo das dinâmicas entre Carl, Assad e Rose, além das marcas emocionais que cada um carrega. Ainda assim, nada disso funciona como barreira: o longa se sustenta sozinho, mantendo acessível tanto quem chega agora quanto quem já acompanha a franquia há anos.

Pontos positivos
Departamento Q: Sem Limites se destaca pelo ritmo enxuto e envolvente, conduzindo a investigação com firmeza e sem perder tempo em desvios desnecessários. A dinâmica emocional dos protagonistas é afiada e equilibrada, dá para perceber que eles estão juntos à bastante tempo.
Além disso, a narrativa evolui em direção a um desfecho surpreendente, construído com pistas discretas e revelações bem distribuídas. Isso reforça a sensação de um thriller policial coeso e satisfatório.

Pontos negativos
No entanto, algumas escolhas narrativas acabam criando um certo desequilíbrio ao longo do filme. Há momentos em que a trama se dispersa com pequenas situações paralelas que pouco acrescentam ao caso principal. Enquanto isso, elementos mais relevantes, como a própria seita envolvida na investigação, poderiam ter ganho um aprofundamento maior e é tratada mais como uma caricatura.
Soma-se a isso uma cena envolvendo um zelador de colégio e Rose, que surge de forma abrupta e não encontra continuidade depois. Embora seja possível interpretá-la como um sinal antecipado da fragilidade emocional da detetive, o momento ainda soa gratuito, exagerado e desconexo, já que o roteiro abandona este homem por completo depois. Assim como o chefe de polícia Henrik Bak (Søren Malling), que não precisava ser tão estúpido e ignorante e que também é esquecido do ato final. Esses ruídos não chegam a comprometer o longa, mas indicam que ainda havia espaço para um desenvolvimento mais cuidadoso.
Além disso, a direção de Ole Christian Madsen segue um caminho bem protocolar, entregando o necessário sem se arriscar. Não há invenção, brilho ou personalidade. Nada na parte técnica se destaca de forma especial: fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora operam de maneira correta, porém pouquíssimos inspirados.

Vale a pena o play?
Departamento Q: Sem Limites chega como um thriller atmosférico, um Nordic Noir capaz de envolver tanto quem já conhece esse universo quanto quem está embarcando nele pela primeira vez. Mesmo com alguns deslizes de foco e direção, o filme entrega uma investigação inquietante, com personagens que poderiam ser mais bem construídos, mas com um desfecho que amarra com competência as peças espalhadas pelo caminho. No fim, o que fica é a sensação de mergulho em um universo intrigante sempre pronto para revelar mais do que aparenta.
Departamento Q: Sem Limites (Boundless / Den grænseløse) estreia exclusivamente na Filmelier+ no dia 19 de novembro. Todos os seis filmes de Departamento Q estão disponíveis no Filmelier+. São eles:
Guardiões das Causas Perdidas (2013)
O Ausente (2014)
Uma Conspiração de Fé (2016)
Em Busca de Vingança (2018)
O Efeito Marco (2021)
Sem Limites (2024) – estreia dia 19/11/2025
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