O Telefone Preto 2: O horror que vai além de um porão escuro | CRÍTICA

O Telefone Preto 2

Chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 16 de outubro, O Telefone Preto 2, de Scott Derrickson. Enquanto o primeiro filme foi baseado em um conto de Joe Hill, a sequência estava livre para caminhar com as próprias pernas. E sabemos que a probabilidade nesses casos pende mais para a mediocridade, mas, em raras ocasiões, o resultado pode ser surpreendente. E este é o caso de O Telefone Preto 2, que consegue ser tão bom, ou até melhor, do que o primeiro.

O Telefone Preto 2 mostra os traumas causados pelo antecessor

O longa se passa quatro anos após os acontecimentos do primeiro filme. Depois de matar e escapar do Sequestrador, Finney tenta seguir em frente com sua vida, mas ser o único sobrevivente de um serial killer macabro tem seu preço. Enquanto finge viver uma vida normal, se esforçando para superar o trauma, ele ainda é atormentado por visões e pelo toque insistente de qualquer telefone preto que esteja por perto. Gwen, sua irmã mais nova, também começa a receber chamadas do mesmo telefone em seus sonhos, que aos poucos começam a ser mais e mais realistas e assustadores.

O Telefone Preto 2 mostra como as consequências de eventos traumáticos podem reverberar de formas diferentes para cada um. Ao mesmo tempo em que Finney se afunda no medo, Gwen decide desafiá-lo. Ela sonha, investiga, enfrenta e acaba tomando para si o papel central da história. E é por meio dela que o filme ganha ritmo. Ponto mais que positivo. Afinal, desde o primeiro longa, Gwen é o ponto empático da família. Além disso, é por meio dela que a máxima alegórica do filme encontra sua força: lidar com traumas não deve ser um caminho solitário.

Assumindo de vez o manto sobrenatural

Em vez de se contentar com uma dose tímida de paranormal, a sequência mergulha de vez no sobrenatural, tornando-se ainda mais sombrio e expansivo. Ele não tenta repetir a fórmula tímida do primeiro filme. E isso o torna totalmente diferente do anterior. Como o próprio cartaz informa, “morto é só uma palavra”. Aqui estamos lidando com um ser cujos limites foram expandidos e que se alimenta do trauma e do medo.

Com isso, O Telefone Preto 2 adquire uma aura mítica. É menos um slasher e mais uma terapia de choque. Um expurgo de memórias trágicas. No entanto, apesar de serem filmes completamente diferentes em tom, ainda é totalmente possível entender que se trata de uma parte do todo. Existe coerência entre ambos para além dos personagens em comum.

Scott Derrickson (A Entidade) não esconde suas influências. Com a trama seguindo para um acampamento isolado por uma nevasca, é impossível não lembrar de O Iluminado. Quando o terror chega por meio dos sonhos lúcidos de Gwen, não há como não pensar em A Hora do Pesadelo. E quando somos levados a esses confins oníricos, é quase como se estivéssemos vendo uma versão do “mundo invertido” de Stranger Things. Mas essas referências estão longe de impedir que o filme tenha identidade própria.

Elenco de O Telefone Preto 2 atende bem ao chamado

A grande virada de O Telefone Preto 2 consiste em transformar o vilão em algo além de humano. Com isso, Ethan Hawke (O Mundo Depois de Nós) passa de uma atuação centrada no horror psicológico para uma performance mais física, imprimindo sua versão de Freddy Krueger. Já Mason Thames (Como Treinar o seu Dragão), que já tinha arrancado elogios da crítica por sua performance como Finney no primeiro filme, consegue transmitir todo o tormento de uma mente que ainda está em modo de sobrevivência. Toda raiva externada apenas para esconder o medo que ainda o atormenta.

O Telefone Preto 2

Mas é Madeleine McGraw (A Maldição da Chorona) e sua Gwen que ganham os holofotes. Com um misto de vulnerabilidade e coragem, a atriz garante uma atuação suficiente para tornar crível o dilema de sua personagem. Afinal, é ela quem escancara o sobrenatural e guia a família através do véu que separa a verdade aparente dos traumas que tentam enterrar sem o tratamento adequado. É uma excelente atuação, embora alguns possam achá-la exagerada ou afetada demais.

Um pesadelo com alma

Definitivamente, O Telefone Preto 2 não era um filme que estava no meu radar. Tanto por não achar que o primeiro precisava de uma continuação quanto por desconfiar que seria, certamente, inferior ao seu antecessor. Mas que bom que estava errada e pude me surpreender com a narrativa e as atuações. Ainda que o roteiro tenha algumas falhas e algumas cenas não precisassem estar presentes. Por motivos de spoilers, não especificarei quais são, mas uma delas é uma cena que, nitidamente, foi feita unicamente para arrancar lágrimas do espectador. Apesar de não precisar existir, não desabona o todo.

O Telefone Preto 2 não é apenas uma sequência. É uma evolução. Expande o universo, reconfigura o foco narrativo e mostra que o terror não mora só no que vemos, mas no que continua chamando por nós quando achamos que já superamos. É um pesadelo com alma e uma grata surpresa.

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Nerd: Tamyris Farias

Designer e produtora de conteúdo apaixonada por cinema e cultura pop. Amante de terror e ficção científica, seja em jogos, séries ou filmes. Mas também não recuso um dorama bem meloso.

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