Chega aos cinemas nesta quinta-feira, 7 de agosto, A Hora do Mal, novo filme de Zach Cregger (Noites Brutais). Eu tento não deixar as expectativas me dominarem, mas fica difícil quando se trata de um diretor/roteirista que já mostrou que não gosta muito de fazer mais do mesmo quando o assunto é terror. O resultado? Um filme inquietante, que quebra e refaz as expectativas de seus espectadores.
Crianças, silêncio e um sumiço que ninguém entende
A trama parte de um acontecimento simples: 17 crianças somem na mesma noite, no mesmo horário e da mesma forma. Sem sinais de sequestro, sem porta arrombada, sem explicações. Elas só se levantam da cama e saem correndo pela porta, madrugada afora. O detalhe está no fato de que todas as crianças faziam parte da mesma turma.
Apenas uma criança, dentre todas, por algum motivo não foi levada. Sem gritos, apenas camas vazias e silêncio. É nesse ponto de partida desconcertante que A Hora do Mal nos joga. Não demora muito para a cidade entrar em colapso. Pais exigem respostas e a polícia parece perdida. Pouco a pouco, o público é arrastado para esse mistério.
A Hora do Mal é um quebra-cabeça contado em diferentes vozes
O diferencial de A Hora do Mal está na escolha da estrutura narrativa, que segue blocos de perspectivas. O tipo de decisão que costuma ser armadilha para roteiro confuso e falho. No entanto, aqui virou apenas combustível para a curiosidade. Sempre que o filme te deixa com mais perguntas que respostas, ele logo oferece um novo ponto de vista para fazer você continuar. Com o principal objetivo de entender onde tudo aquilo ia dar.
Ok, “entender” é uma palavra forte. Principalmente porque A Hora do Mal não tem pressa, ou interesse, em dar explicações. Em vez do didatismo, recebemos migalhas. Fragmentos de informações. O suficiente, apenas, para formular suas próprias teorias, mas nunca o suficiente para ter certeza de alguma coisa. O que pode parecer frustrante para quem prefere ter todas as respostas na mesa. Já no subtexto, temos um verdadeiro banquete de reflexões.
Julgar a mulher é fácil (e conveniente)
O longa traz uma discussão sobre moralidade e o papel das mulheres dentro de uma sociedade que julga mais do que ouve. A figura da mulher livre, que bebe, que transa, que vive do seu jeito, vira automaticamente o alvo preferido das acusações. Porque quando não se sabe onde está o monstro, sempre se aponta para quem foge dos padrões. Mostrando que não somos tão diferentes do que a civilização de séculos atrás, que condenava curandeiras e mulheres solitárias por bruxaria enquanto os verdadeiros culpados seguiam livres, à sombra da histeria coletiva.

Além disso, A Hora do Mal também apresenta a ideia do parasita. Aquele que se infiltra na sua vida, na sua rotina, com um sorriso. Quando você percebe, ele já está confortável demais. Te esvaziando aos poucos. Sugando tudo que te faz ser quem você é. Amor, autonomia, voz. Tudo vai sendo consumido com a paciência cruel de quem sabe manipular. Uma metáfora sombria e visceral, traduzida em imagens que justificam a classificação indicativa de 18 anos.
Com múltiplos protagonistas, A Hora do Mal se destaca pelo incomum
Zach Cregger tem uma assinatura peculiar. Um talento para gerar tensão e desconforto, trabalhando devagar sua atmosfera. Apesar de se beneficiar de jump scares, A Hora do Mal não se apoia neles para criar um clima inquietante. É mais como esticar uma corda ao máximo, esperando ansiosamente pelo momento em que ela finalmente irá se partir. E quando finalmente acontece, não é da forma que se espera. A quebra da expectativa pode causar estranheza e gerar desgosto em alguns. Mas entendo o momento como a comicidade do absurdo. Quase como rir em um enterro.
Confesso que fiquei com um pé atrás em relação à escolha por sete protagonistas. Afinal, é muita gente para desenvolver em pouco tempo. No entanto, surpreendentemente, funciona. Tanto para o desenrolar da história quanto para dar o devido espaço para cada personagem. Os pontos de vista parecem microcontos interligados, que se encaixam ao todo de forma orgânica. E as atuações ajudam. Julia Garner (Quarteto Fantástico), Josh Brolin (Duna: Parte 2), Alden Ehrenreich (Oppenheimer), Amy Madigan (Espíritos Obscuros), Benedict Wong (Doutor Estranho) e o pequeno Cary Christopher entregam performances incríveis.
Um dos melhores do ano
A Hora do Mal não é um filme que você assiste esperando respostas sobre todos os detalhes mostrados na tela. É um filme que te provoca com o desconforto e te segura pela curiosidade. Que cutuca feridas sociais e cria tensão sem se apoiar em sustos telegrafados. Que faz da ignorância sua maior força. Para quem curte histórias que inquietam mais do que explicam, que preferem o mistério à lógica, recomendo encarar esse “mal”. Facilmente um dos melhores do ano.
A Hora do Mal estreia hoje, somente nos cinemas.
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