A Melhor Mãe do Mundo entrega mais uma obra nacional forte e comovente | CRÍTICA

Depois de passar pela 75ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde foi selecionado para a mostra Berlinale Special e recebido com aplausos entusiasmados, A Melhor Mãe do Mundo, novo longa de Anna Muylaert (dirigido, escrito e produzido por ela), chega aos cinemas brasileiros em 07 de agosto.

O filme, vencedor de prêmios em festivais como o de Guadalajara no México e o de Toulouse na França, acompanha Gal (Shirley Cruz), uma catadora de materiais recicláveis que, para proteger seus filhos da violência doméstica do marido Leandro (Seu Jorge), decide fugir pelas ruas de São Paulo empurrando sua carroça com os pequenos Rihanna e Benin, transformando a travessia em uma aventura para preservar a inocência das crianças, na melhor vibe A Vida é Bela.

Anna se mantém como uma voz importante do cinema nacional e mais uma vez entrega uma produção sensível e com crítica social. Pois a tal da aventura é apenas um novo bonito para chamar a jornada de coragem e resiliência da personagem. A maternidade tem tido um papel central da diretora, como em Que Horas Ela Volta? (2015) e em Durval Discos (2002), e aqui em A Melhor Mãe do Mundo a lente é mostrada sob o viés da marginalidade urbana, da luta por sobrevivência e da reinvenção constante que tantas mulheres enfrentam diariamente, principalmente em relação à violência doméstica.


E Gal se encontra, de fato, na base da pirâmide social: mulher, negra, pobre e catadora de recicláveis. Estudos acadêmicos e estatísticas oficiais demonstram que mulheres negras no Brasil estão entre os maiores alvos de violência doméstica e sexual. Por exemplo, em 2022, 55% das vítimas de violência sexual eram mulheres pretas ou pardas, e 67% das mulheres assassinadas eram negras. Pesquisas como a do Instituto de Pesquisa DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, confirmam que esse grupo acumula vulnerabilidades estruturais (discriminação, pobreza, menor acesso à justiça) que dificultam romper com contextos abusivos.

A Melhor Mãe do Mundo

No longa, esse ciclo é exposto em um diálogo entre Gal e sua prima, Valdete (a cantora Luedji Luna) que nos revela que a mãe de Gal também sofria com violência de seu pai, e que ela mesma é traída e espancada pelo próprio marido Anivaldo (Rubens Santos), mas permaneceu naquela vida por considerar não ter alternativa, especialmente com os filhos. Valdete pensa que o mundo é aquele mesmo para as mulheres. Esse contraponto traz à narrativa uma reflexão sobre o que permite ou impede a saída de um ciclo de violência, seja o medo, a falta de apoio ou a ausência de uma rede de proteção, enquanto ressalta a força que Gal encarna no desejo de buscar outra forma de viver. 

Shirley Cruz compõe Gal como uma mulher determinada, mas também atravessada por dúvidas, medos e inseguranças. Sua atuação equilibra força e fragilidade com precisão, é possível perceber, em cada gesto, o peso das escolhas da personagem e o temor constante de que sua decisão possa não ter sido a melhor para os filhos. Durante boa parte do filme, sua presença sustenta com intensidade a carga emocional da narrativa. No entanto, em uma das sequências finais, ambientada próximo do estádio do Corinthians, essa construção perde força. A cena, que exigia uma entrega emocional mais cortante, acaba não tendo tanto impacto. Além disso, a partir desse momento, a obra assume um tom mais utópico, não pela escolha da protagonista, mas pelos locais nos quais ela passa, distanciando-se do realismo que lhe conferia potência e urgência, o que acabou enfraquecendo a crítica social e diluindo o retrato cru e honesto que vinha sendo desenhado até ali.

Tecnicamente, a direção de A Melhor Mãe do Mundo imprime ao filme um ar quase documental, mas sem abrir mão de ser uma obra ficcional. A fotografia revela a dureza dos espaços urbanos, mas que também encontra beleza na simplicidade vida. É uma imagem que não suaviza a realidade (pelo menos até o ato final), mas também não a transforma em um espetacularização da pobreza e nem do sofrimento.

A Melhor Mãe do Mundo

A Melhor Mãe do Mundo é mais uma prova da relevância de Anna Muylaert no panorama do cinema brasileiro. Com uma protagonista potente, uma abordagem sensível e uma crítica social urgente, o filme acerta ao iluminar histórias que raramente ganham espaço nas telas. Ainda que escorregue em sua reta final, o longa segue como uma obra necessária, tanto pelo retrato que oferece da violência silenciosa que permeia a vida de tantas mulheres quanto pela esperança que propõe de que é possível romper com ciclos de opressão, independente de sua classe social. É um cinema que inquieta e provoca reflexões importantes sobre afeto, maternidade e resistência

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Nerd: Verônica "Vevê" Cysneiros

🎬📺🎸 Cinéfila de carteirinha (vejo tantos filmes que às vezes esqueço como funciona a vida real), maratonista de séries (minha lista de “vou assistir depois” já tem títulos suficientes para outra vida.), apaixonada por animações (aguardando minha carta de admissão para algum universo mágico) e movida a rock n' roll (rockeira na alma, mas sem talento musical, só no air guitar), compartilho tudo o que faz meu coração geek bater mais forte. Pega a pipoca e vem comigo meus Preferidos!

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