Finalmente chega ao Brasil A Sombra do Torturador, um dos grandes clássicos da Fantasia Científica. Escrito por Gene Wolfe e lançado originalmente em 1980, a obra é uma das fontes de inspiração de George R. R. Martin para construir seu universo em As Crônicas de Gelo e Fogo. Composta por quatro volumes, a saga O Livro do Novo Sol chega por aqui pela Editora Morro Branco.
A verdade é que muitos já haviam perdido a esperança de algum dia ver uma edição nacional da obra. Esta que é considerada um dos melhores livros já escritos, sendo, inclusive, vencedor do prestigiado prêmio World Fantasy Award. Então, devo dizer que minhas expectativas estavam bem altas para essa leitura. E, talvez, essa tenha sido minha perdição.
Beleza, traição e um mundo em ruínas
Em A Sombra do Torturador somos apresentados a Severian, um órfão criado pela Guilda dos Buscadores da Verdade e da Penitência, o que só soa uma alternativa mais afável para não chamá-los de “Torturadores”. Prometido a uma carreira brilhante, Severian vê seu destino ser alterado quando seu caminho cruza com o da enigmática e bela Thecla, uma mulher nobre, inteligente e magnética. Sua paixão por ela cresce a cada encontro. O problema é que Thecla é uma prisioneira.
Em nome desse sentimento, Severian trai sua guilda, seus juramentos, seu mundo. Por demonstrar misericórdia à mulher, em vez de cumprir seu dever como carrasco, ele é expulso da Cidadela e forçado ao exílio na longínqua cidade de Thrax, carregando apenas a lendária espada Terminus Est, um objeto que carrega história e simbolismo. Mas o que parecia ser o fim, na verdade, era apenas o início de uma longa jornada. Relíquias misteriosas, figuras enigmáticas, monstros e armadilhas são alguns dos ingredientes de uma narrativa que questiona o mundo ao redor, identidade e propósito.
A Sombra do Torturador exige paciência e gosto por enigmas
Como falei, comecei A Sombra do Torturador com uma expectativa alta e sem saber exatamente onde eu estava me metendo. Talvez por esse motivo não tenha apreciado tanto a trajetória. No entanto, já escutei uma ou duas vezes que “se você leu Gene Wolfe uma vez, então não leu nenhuma”. Aparentemente este é o caso de que uma releitura é mais válida para absorção do que apenas por gosto.
O primeiro volume de O Livro do Novo Sol é uma leitura desafiadora, principalmente para os que nunca tiveram contato com alta fantasia. Em parte pela prosa rebuscada e densa de Wolfe, mas também pelas informações apresentadas sob camadas e mais camadas de descrições detalhadas, como um enigma a resolver. Além disso, os personagens são pouco cativantes. Ao menos nesse primeiro livro.
Um narrador pouco confiável
Com uma estrutura não linear, A Sombra do Torturador é narrado em primeira pessoa por Severian, em um futuro que não se sabe ao certo o quão distante é. Na trama, ele narra seus feitos do passado, a fim de explicar como chegou onde se encontra agora, seja lá onde for esse lugar.
Porém, Severian não é um narrador confiável. Longe disso. Com uma moral muito duvidosa, ele frequentemente ameniza muitas das atitudes reprováveis que teve e omite situações. Então ficamos à mercê de sua narrativa, que frequentemente divaga por longas descrições de lugares e objetos em detrimento de detalhes importantes sobre passagens que o envolvem.
A Sombra do Torturador nos leva a um futuro distante, com gosto de passado
A Sombra do Torturador se vale mais pela sua estrutura narrativa envolta em simbolismos e quebra-cabeças que por seus personagens. Severian é, facilmente, um dos personagens mais desprezíveis que já li e acompanhá-lo em seus pensamentos distorcidos foi uma experiência árdua. Sua relação com as personagens femininas, Thecla, Ágia e Dorcas, parecia, muitas vezes, delirante. Desde as suas descrições aos seus sentimentos para com elas.
Embora não saibamos em que ano a história se passa, a ambientação medieval, as estruturas de guildas e organizações obscuras nos remetem a um passado ou um mundo novo, assim como a Terra Média. No entanto, logo percebemos que, apesar do cenário, estamos em um futuro distante, talvez até milhões de anos à frente, como alguns fragmentos de texto dão a entender. É uma Terra que regrediu a uma condição mais “primitiva”, ainda que viagens interplanetárias, armas de raios e alienígenas coexistam entre humanos e suas carruagens.
Mas, se tirarmos todos os adereços e alegorias e deixarmos apenas a história, percebemos que ela é bastante simples e, sinto dizer, um tanto desinteressante. Talvez divertida para alguns, mas, ainda assim, lenta. Uma trama que pode ser reduzida a poucas linhas: Um homem de atitudes questionáveis atravessa a cidade após ser exilado por seu grupo. Neste caso, inegavelmente, o recheio se sobrepõe à massa.
A Sombra do Torturador é mais forma do que afeto
A Sombra do Torturador, infelizmente, não foi um livro que me cativou em sua primeira leitura. Mais por uma questão de gosto que de qualidade, absolutamente. Mas é uma leitura essencial para os fãs de fantasia e ficção científica, que valorizam a prosa e a ambientação acima do desenvolvimento de personagens.
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