Quatro Paredes é um documentário impossível de ignorar | CRÍTICA

Quatro Paredes (Black Box Diaries) foi um dos indicados ao Oscar de melhor documentário deste ano e, dentre os que assisti, meu preferido. A jornalista, diretora e protagonista, Shiori Itō, usa sua própria história para expor a dura realidade da cultura do silêncio e da impunidade no Japão quando o assunto é violência sexual. Em 2015, ela fez a denúncia de um estupro, mas sua busca por justiça foi marcada por negligência policial, retaliação e ataques públicos. Diante desse cenário, pegou uma câmera e em muitos momentos escondeu um gravador de áudio, decidida a documentar sua luta, a transformando em um poderoso testemunho, primeiro em forma de livro e agora com este longa que chegou recentemente ao Brasil. Como mulher, foi impossível para mim não sentir ódio e indignação ao assistir a essa jornada de resiliência e coragem.

O agressor de Shiori Itō foi Noriyuki Yamaguchi, um jornalista influente e biógrafo do então primeiro-ministro japonês Shinzo Abe. O fato dele ser um homem poderoso, com conexões de alto nível, tornou a busca por justiça ainda mais difícil. Entre investigações falhas e batalhas nos tribunais, Shiori se viu lutando não apenas contra seu agressor, mas contra um sistema com práticas retrógradas que insiste em silenciar as vítimas. Seu documentário não é apenas um relato pessoal, mas uma denúncia da impunidade e da cultura que protege os poderosos à custa da dor de tantas mulheres.

E uma prova cabal existe: um vídeo de câmeras de segurança que deixa claro o que aconteceu. Ainda assim, nem mesmo a própria família queria que Shiori levasse o caso adiante. Para eles, seria melhor ficar em silêncio e seguir em frente, em vez de enfrentar uma batalha quase impossível na sociedade japonesa. O documentário escancara essa realidade desde os primeiros minutos, confrontando o espectador com cenas que não deixam espaço para dúvidas: ela foi levada à força para aquele hotel.

Se já é difícil para as mulheres do ocidente denunciarem casos de violência sexual, no Japão a situação é ainda pior. O país tem uma das legislações mais ultrapassadas nesse aspecto: a lei de estupro vigente tem 110 anos, e a idade mínima para consentimento é de apenas 13 anos. Como resultado, de acordo com o documentário, pelo menos 70% das vítimas de estupro no Japão não denunciam seus agressores, seja por medo, vergonha ou pela certeza de que o sistema não fará nada. A cultura machista enraizada no país reforça essa impunidade e Quatro Paredes evidencia esse caráter arcaico e conservador das leis japonesas, tornando a busca por justiça um desafio quase impossível. A luta de Shiori não é apenas para punir seu agressor, mas para expor um sistema jurídico que falha em garantir os direitos das mulheres.

O documentário também aborda o impacto do MeToo, ressaltando, porém, que no Japão o movimento não teve a mesma aceitação que em outros países. Desacreditar a vítima ainda é um procedimento comum, e os argumentos usados para isso são sempre os mesmos: Ah, mas ela saiu para beber com seu agressor. Ah, mas ela estava com muito decote na coletiva de imprensa. Ah, mas… que cansaço. MeToo é realmente um nome muito bom, porque esta não é uma história isolada, infelizmente é bem comum, que acontece todos os dias, em todos os lugares. E é exatamente por isso que Quatro Paredes é tão importante. Shiori Itō conseguiu denunciar, conseguiu ser ouvida, mas ainda está bem longe de receber a justiça que merece, precisando seguir com sua vida lidando com o trauma e com a violência que lhe foi imposta.

Se abrir na esfera pública japonesa é um ato de extrema coragem e Quatro Paredes captura essa dor com um olhar muito pessoal e diferenciado. É uma produção relevante e muito bem dirigida, que nos mantém presos à tela. Diante da omissão da polícia, Shiori mesma assume o papel da investigadora do próprio crime, construindo sua narrativa em primeira pessoa. O filme não recorre a uma descrição clínica dos eventos, muito menos contém cenas explícitas de agressão, já que não importa o como, mas o quando e o por quê, carregando um peso imenso e tornando impossível assisti-lo sem sair abalado. O disclaimer logo no inicio do longa já foi um mais carinhosos que já vi, refletindo uma sensibilidade e uma humanidade por trás dessa obra tão necessária.

Quatro Paredes é um documentário essencial, forte e impossível de ignorar, não apenas pelo relato corajoso de Shiori Itō, mas pela forma como expõe uma sociedade e um sistema que resistem em discutir a violência de gênero. Ele estará disponível a partir do dia 11 de março no Filmelier+, nova plataforma cujo serviço já está disponível para assinatura dentro do Prime Video. E para quem estiver em São Paulo, haverá duas sessões gratuitas no CineSesc, na R. Augusta, 2075. Uma no dia 08 de março e outra no dia 10 de março, esta seguida por um bate-papo com a atriz Ana Hikari e a jornalista e escritora Adriana Negreiros, com mediação da crítica de cinema Flávia Guerra, ambas marcando o Dia Internacional da Mulher, uma oportunidade imperdível para refletir sobre essa história tão impactante.

Posts Relacionados:

Na Sua Pele – A Série Marked Man é um produto de fãs e para fãs

O Macaco: Um terror sangrento e escrachado | Crítica

Mickey 17 marca aguardado retorno de Bong Joon Ho aos cinemas

Não esquece de seguir o Universo 42 nas redes sociais:

Instagram YouTube Facebook

Nerd: Verônica "Vevê" Cysneiros

🎬📺🎸 Cinéfila de carteirinha (vejo tantos filmes que às vezes esqueço como funciona a vida real), maratonista de séries (minha lista de “vou assistir depois” já tem títulos suficientes para outra vida.), apaixonada por animações (aguardando minha carta de admissão para algum universo mágico) e movida a rock n' roll (rockeira na alma, mas sem talento musical, só no air guitar), compartilho tudo o que faz meu coração geek bater mais forte. Pega a pipoca e vem comigo meus Preferidos!

Share This Post On