Chega aos cinemas na próxima quinta-feira, dia 06 de março, o tão aguardado Mickey 17. O filme, que marca o retorno de Bong Joon Ho após o aclamado Parasita, é estrelado por Robert Pattinson (Batman) e ainda tem no elenco Naomi Ackie (Pisque Duas Vezes), Toni Collete (Hereditário) e Mark Ruffalo (Pobres Criaturas). Baseado no romance Mickey7, de Edward Ashton, a história é um presente para os amantes de ficção científica com altas doses de existencialismo e crítica social. Do jeito que Joon Ho adora.
O tema, clonagem, pode até não ser inovador, mas a forma criativa como o longa explora e pôe em discussão é brilhante. Enquanto muitos trabalham a questão ética do desejo do ser humano de ser imortal, ou o egoísmo de não aceitar a morte de entes queridos, Mickey 17 joga com uma proposta um pouco diferente. A ideia capitalista de que ninguém é insubstituível encontra aquela que diz que vale tudo pela ciência. E o resultado não poderia ser melhor.
Mickey 17 debate o trabalhador como peça descartável
Em Mickey 17, Mickey Barnes é um “descartável”, um trabalhador designado a missões perigosas, suicidas, na maior parte das vezes. Ao morrer, suas memórias são transferidas para um novo corpo, um clone que continua a missão sem interrupções. Mas, após tantas mortes, ele começa a questionar sua própria existência. Em meio a verdades ocultas e conspirações, Mickey precisará decidir entre obedecer ao sistema que o criou ou desafiar um ciclo que parece impossível de quebrar.
Falido, sem perspectiva e com uma dívida imensa que não sabia como conseguiria pagar, o Programa de Colonização Espacial parecia ser a única opção para Barnes conseguir sobreviver a uma cobrança bastante sanguinária da dívida. Entretanto, por não possuir qualificações para nenhum cargo minimamente razoável, lhe restou apenas a aplicação para o único que o aceitaria: o de Descartável.
E aqui a narrativa traça um paralelo com o que já enfrentamos hoje em dia. Como aquelas vagas absurdas, que exigem muito e te oferecem pouco. Essas que se beneficiam justamente de pessoas desesperadas para impor condições insalubres de trabalho. Pois sempre tem quem aceite. Alguém que esteja precisando tanto que considera abdicar de direitos básicos, se submete a ambientes tóxicos e aceita um pagamento pífio para conseguir sobreviver.
A perda da humanidade e a ciência sem limites
Quando Mickey se torna um “descartável”, ele gradativamente vai sendo destituído da própria humanidade. A cada morte ele se torna mais uma coisa e menos uma pessoa. E claro, não há limites para os tipos de experiências e missões designadas a Mickey. Todas fundamentadas, claro, pela importância para a humanidade. Testes de vacinas, experimentos por mera curiosidade, missões de reconhecimento… Para todo objetivo perigoso demais para se alcançar, sempre tinha um Mickey para usar.
Mickey 17 é uma ficção científica que transita entre a sátira e o drama. Mostrando figuras que exalam aquela pretensa certeza de superioridade. Um erro comum dentre aqueles que chegam ao poder convencendo a todos que sua falta de inteligência é apenas uma máscara para sua genialidade. E nesse ponto temos tantos paralelos com a realidade que caberia até um texto à parte.
Contudo, é possível identificar também um subtexto de autoaceitação. Barnes foi condicionado por toda sua vida, através de traumas, a acreditar que não merecia nada além daquilo. E percebemos como um evento, até mesmo esquecido por uma mente protetora, pode influenciar inconscientemente nossas ações futuras. Como elas influenciam na percepção de valor que atribuímos a nós mesmos.
Mickey 17 tem paralelo com o yin-yang e identidade fragmentada
Mickey 17 explora a dualidade de forma brilhante, como uma metáfora sobre autoconhecimento, equilíbrio e a inevitável coexistência de forças opostas dentro de cada um de nós. Um dos pontos de tensão do longa ocorre justamente quando Mickey 17 é deixado para morrer e um novo clone é criado. No entanto, contra todas as expectativas, 17 consegue se salvar e, ao retornar para a base, acaba se deparando com sua nova versão.
Dito isso, Mickey 17 também traz para a narrativa o conceito filosófico do Yin-Yang. Principalmente porque Mickey 18 tem uma personalidade diferente de sua cópia anterior. É como se essa nova versão de Barnes representasse uma manifestação de tudo que reprime dentro de si. Diferente do 17, Mickey 18 consegue externalizar suas indignações, suas frustrações e sua raiva. E não é sobre quem está errado ou certo. É sobre como ambos são partes da mesma identidade fragmentada.
Robert Pattinson e um elenco de destaque
Mickey 17 traz Robert Pattinson em uma atuação excelente como Mickey Barnes. Aqui ele prova o porquê de ser um dos atores mais versáteis da atualidade. Com a missão de interpretar duas versões contrastantes do protagonista, Pattinson consegue fazer com que cada Mickey pareça, ao mesmo tempo, familiar e distinto. Com variações sutis na linguagem corporal, entonação e expressão facial, Pattinson consegue entregar um protagonista que cativa em suas duas versões.
Não é à toa que Nasha, maravilhosamente interpretada por Naomi Ackie, cria uma conexão tão forte com Mickey (seja ele qual for). A interação entre ambos é ótima e rende momentos divertidos e ternos. Mas ela não é reduzida ao papel de interesse amoroso, apenas. Sua presença é um dos catalizadores que fazem a trama se desenrolar.

Se tem alguém naturalmente carismático, esse alguém é Mark Rufallo. Seu Kenneth Marshal, líder do Programa de Colonização Espacial, é um vilão excêntrico. A princípio, o gestual afetado e caricato funciona como um alívio cômico. Porém, com esse mesmo senso de humor, ele é responsável por muitos absurdos. Quantas personalidades com atitudes questionáveis não já foram catapultadas ao estrelato e poder, justamente por que alguém achou graça de suas bizarrices? Não atoa tem um jeito de falar que lembra muito um certo alguém no poder.
Mickey 17 ainda conta com atuações incríveis de Toni Collette, como Ylfa, a esposa sádica e desprezível de Marshal. Steven Yeun (Não! Não Olhe!), como Timo, melhor amigo de Mickey. Um antagonista ambíguo que, apesar de parecer apenas um coadjuvante, tem sua importância na narrativa. Ainda estão no elenco Anamaria Vartolomei (O Acontecimento) e Daniel Henshall (The Royal Hotel).
O toque distópico de Bong Joon Ho
Ao final do filme fica realmente difícil imaginar outra pessoa que não Bong Joon Ho para dirigir Mickey 17. Com tom distópico, Joon Ho trabalha suas metáforas em todas as camadas possíveis. Como o ambiente claustrofóbico e limitado em meio à imensidão de um mundo alienígena, que evoca a ideia do quanto somos pequenos diante a imensidão desconhecida. Ou mesmo nos momentos em que Mickey cai no chão enquanto está sendo refeito, demonstrando sua desumanização.
Mickey 17 é uma ficção científica para múltiplas reflexões
Sem dúvidas, Mickey 17 já desponta como uma das melhores ficções científicas do ano. E isso se deve à exímia capacidade de Bong Joon Ho contar uma boa história repleta de camadas. Apesar de possuir uma pequena queda no ritmo da narrativa no segundo ato, o diretor, que também escreveu o roteiro, consegue dosar bem os elementos que tinha em mãos. Isso tudo sem perder sua identidade provocativa. Envolvente e visualmente impressionante, vale ser visto “múltiplas” vezes.
Mickey 17 estreia dia 6 de março somente nos cinemas.
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