“Tempos de Barbárie” oferece uma perspicaz exploração da complexidade humana em face da violência urbana no Brasil. Cláudia Abreu e Júlia Lemmertz, em performances excepcionais, elevam o filme acima das armadilhas do didatismo e melodrama, mantendo o espectador envolvido.
No terceiro ato, Cláudia Abreu como Carla emana uma tensão palpável. Ao ligar para seu ex-marido, interpretado por César Mello, de uma lanchonete à beira da estrada, ela revela uma mistura de determinação e desespero. Abreu nos permite vislumbrar o fogo por trás dos olhos da personagem, demonstrando uma compreensão profunda do luto e da raiva que a impulsionam.
Júlia Lemmertz, por sua vez, surpreende ao descontruir a persona de serenidade elegante que a caracteriza. Sua personagem, a terapeuta que guia o grupo frequentado por Carla, evolui de coadjuvante para elemento central da trama. Lemmertz entrega uma performance complexa e emocionalmente ressonante, explorando a fragilidade por trás da fachada.
Juntas, Abreu e Lemmertz tornam “Tempos de Barbárie” um filme sobre a latência da humanidade, evitando o risco de se tornar uma peça ideológica desalmada. O roteirista Marcos Bernstein, movido pela indignação política, aborda com maestria os sistemas que perpetuam a violência armamentista no Brasil. Embora o filme apenas arranhe a superfície desses sistemas, o esforço em expor o trajeto das armas até suas mãos executoras é inegavelmente crucial.
A direção de Bernstein contribui para a imersão do espectador em um cenário urbano sombrio e opressivo. A utilização de sombras complexas, perspectivas forçadas e um filtro desaturado cria uma atmosfera que lembra os mestres do suspense, sem deixar de manter sua originalidade.
No entanto, o filme enfrenta um dilema estrutural com o subtítulo “Ato 1: Terapia da Vingança“. O desfecho abrupto parece apressado e deslocado, deixando questões não resolvidas e sugerindo uma continuação pouco explorada das narrativas secundárias.
“Tempos de Barbárie” é, sem dúvida, uma obra provocante que brilha pela entrega excepcional das atrizes e pela habilidade de Bernstein em retratar as complexidades de um tema tão urgente. É um filme que desafia, emociona e incita à reflexão sobre a natureza humana diante da violência.
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