Crítica de Rebecca – A Mulher Inesquecível

Um fenômeno interessante que está ocorrendo no cenário atual é que, de forma geral, o público não tem interesse em assistir filmes antigos, porém, o mercado se interessa em fazer obras novas sobre obras antigas.

Isso explica o sucesso de Stranger Things ou Jogador Nº 1, por exemplo.

E não são apenas as franquias que estão dominando o cenário atual, mas os remakes e reboots também.

Com isso, quando foi anunciado que o clássico Rebecca – A Mulher Inesquecível teria um remake lançado diretamente para a Netflix, muitos se perguntaram o porquê disso.

A resposta é simples: mesmo o clássico de 1940 sendo um filme importante e vencedor de Oscar e dirigido por um mestre como Alfred Hitchcock, poucos o conhecem.

E o livro da Daphne du Maurier então, aí é que afunila mais ainda o público. Aliás, poucos sabem que este livro que inspirou esses filmes foi acusado de plágio pela brasileira Carolina Nabuco em sua obra A Sucessora, que anos depois virou novela.

Por isso, faz muito sentido em trazer essa história para os dias atuais, já que faz com que uma geração corra atrás do filme de 1940 e que conheça uma trama clássica.

Todos sabiam que era difícil este filme se igualar ao clássico. Ben Wheatley, diretor deste filme, não é nenhum Hitchcock, mas este aqui não faz feio.

O filme conta a história da Sra. De Winter (Lily James) é uma moça pobre, ingênua e que vive apanhando da vida. Sua sorte parece mudar quando ela conhece o milionário Maxim de Winter (Armie Hammer), se casa com ele e vai morar na mansão dele com os empregados.

Mas o que parecia ser um conto de fadas, se torna o maior pesadelo: a ex-esposa de Maxim, Rebecca, acabou de falecer, ainda é querida por todos, se torna uma sombra no caminho da protagonista, que é sempre comparada e todos a enxergam como uma intrusa, principalmente a governanta Sra. Danvers (Kristin Scott Thomas), que tinha um laço emocional com a Rebecca e fará de tudo para tirar essa novata do caminho.

O filme de Hitchcock acerta em investir no suspense, no mistério e em flertar com o sobrenatural. Afinal, quem é essa Rebecca e porque ela é sempre uma sombra?

Este filme também tem muito do suspense que a trama pede, mas aqui o thriller é substituído pelo drama romântico, o que pode frustrar os fãs mais hardcore, mas que o grande público não deve reclamar.

De fato, esse drama funciona, sobretudo pelo envolvimento emocional com a protagonista e é impossível não torcer por ela. Essa trama poderia ser muito bem trocada pela história da Cinderela (também interpretada pela Lily James no live action de 2015) como uma jovem pobre, inocente e cheia de sonhos que conhece seu príncipe encantado. Pode não fazer sentido para quem conhece o filme original, mas para muitos faz todo o sentido.

E em um ano complicado e de pandemia como 2020, ter uma história pela qual você se envolve emocionalmente com a protagonista é o que muitos procuram.

Ou seja, foi um grande acerto de todos que esse filme tenha estreado em uma plataforma popular como a Netflix, mas se o filme tem qualidades, o mesmo não se pode dizer de seu estranho 3º ato, que foge completamente do foco da história principal, vira um drama de tribunal que não funciona, até seu péssimo desfecho.

Mas não podemos reclamar do seu elenco, que de fato se empenhou para seus personagens. Mesmo Armie Hammer, que não costuma ser muito elogiável, não compromete aqui, mas logo fica claro para o espectador que este é um filme das mulheres.

Lily James se encaixou como uma luva para o papel: ingênua, inocente e que o público torce, os produtores souberam escolher a dedo uma atriz com essas características e que ainda seja carismática e com todas as qualidades da atuação.

Mas aqui o show é de Kristin Scott Thomas, que transmite o medo, frieza e arrogância só no olhar e não precisa de muito para ter sua voz imponente. Não é de se estranhar alguma indicação para as premiações como Atriz Coadjuvante e não perde em nada para Judith Anderson do filme de Hitchcock.

Rebecca – A Mulher Inesquecível não deve se tornar clássico, tem muitos problemas, mas não é o desastre que a crítica achou. É um filme que respeita o que veio antes, sabe seu lugar, mas que tem seu sucesso merecido.

E tem gente que desdenha filme para streaming.

Nerd: Raphael Brito

Não importa se o filme, série, game, livro e hq são clássicos ou lançamentos, o que importa é apreciá-los. Todas as formas de cultura são válidas e um eterno apaixonado pela cultura pop.

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