A frase “à frente do seu tempo” é muito dita no mundo da cultura pop para aquelas obras em que as pessoas não estavam preparadas para elas na ocasião de seu lançamento, mas que o tempo mostrou sua devida importância.
E não é exagero nenhum dizer que Psicose é uma delas. O filme não foi ignorado no seu lançamento e reconhecido depois, que é o caso de clássicos como Blade Runner ou Clube da Luta, pelo contrário, foi muito bem de bilheteria, custando míseros 800 mil dólares e faturando mais de 32 milhões nas bilheterias mundiais.
E é dos filmes mais citados quando o assunto é suspense, narrativa, construção de personagens e, claro, plot twist.
Em uma época em que esse termo nem existia, o filme apresenta nada menos do que dois plot twists, até hoje chocam e provocam o espectador e para quem vê o filme pela primeira vez, subverte a expectativa.
Primeiro, somos conduzidos à história de Marion Crane (Janet Leigh, ótima), uma secretária que trabalha em um pequeno escritório, mas que some com 40 mil dólares que ela deveria depositar no banco para seu chefe. Após dirigir por horas, ela acaba em um hotel pequeno de beira de estrada, o Bates Motel. Lá ela conhece o estranho Norman Bates (Anthony Perkins, no melhor papel de sua carreira), os dois têm uma estranha amizade, ele mora junto com a mãe autoritária, mas o inesperado acontece: Marion é assassinada a facadas tomando banho.
Tudo isso acontece apenas na primeira metade do filme e já entra a primeira quebra de paradigmas da história: a protagonista, a “estrela” do filme já morre na metade. A partir de agora acompanhamos a irmã e o amante da vítima pela busca de respostas em uma investigação pelo suposto desaparecimento de Marion.
E depois de uma intensa busca, com mais perguntas do que respostas, eis a segunda grande surpresa do filme: a mãe de Norman Bates está morta há anos. Todas as conversas entre os dois foram da cabeça do Norman. Foi ele mesmo que matou Marion no chuveiro. E o filme explica isso de forma brilhante em seu desfecho.
Na ocasião do lançamento em 1960, Hitchcock mandou as redes de cinema proibirem a entrada das pessoas após o início da sessão, que poderia ser algo negativo, mas que só aumentou o boca-a-boca e o sucesso do filme até hoje.
Não é exagero nenhum dizer que Psicose foi o filme que praticamente “inventou” o spoiler.
Mas engana-se quem acha que Psicose é pautado unicamente em seus plot twists: Hitchcock aqui faz uma excelente condução de sua história, fazendo com que o espectador se envolva emocionalmente com a história da Marion, mesmo sendo ela moralmente discutível – ela roubou dinheiro e mantém um relacionamento casual. O clima de suspense é angustiante nas duas metades de projeção e embora a primeira hora seja mais lembrada, a segunda é igualmente bem construída.
E o roteiro de Joseph Stefano (baseado no livro do Robert Block) é feliz em não apontar o dedo na moralidade (ou não) dos personagens e em construir diálogos ímpares que são constantemente estudados em faculdades de cinema.
Mas por mais que filme tenha grandes atores, um diretor consagrado e uma grande história, o filme não seria nada sem sua verdadeira estrela: a magnífica trilha sonora de Bernard Herrmann. O filme não funcionaria sem ela, seja na sequência inicial, na final, ao longo de toda a projeção e obviamente, na cena do chuveiro.
Aliás, Hitchcock não queria trilha na cena e queria que o impacto fosse no grito da atriz. O próprio Herrmann convenceu o diretor do impacto da música e o resultado foi tão positivo que o próprio Hitchcock teve que voltar atrás na decisão.
E mesmo sendo esta uma produção barata, o filme faz muito com pouco em sua técnica, seja na primorosa fotografia em preto e branco, a direção de arte que pôe no chinelo muito chroma key moderno de hoje em dia e a equipe de montagem teve muito trabalho com a censura da época, principalmente na cena do chuveiro, com a nudez da atriz e o sangue escorrendo.
Psicose teve 4 indicações ao Oscar – Melhor Direção, Atriz Coadjuvante para Janet Leigh, Fotografia e Design de Produção. Saiu de mãos vazias e, absurdamente, a trilha de Herrmann sequer foi lembrada.
É pouco para esta obra-prima do cinema que é referência, teve continuações (nenhuma delas chega aos pés deste aqui), um péssimo remake em 1998, mas que gerou uma ótima série chamada Bates Motel.
Psicose não envelheceu nada, é dos filmes mais importantes do cinema e sim, é muito à frente do seu tempo.




