O Grande Ditador: 80 anos depois – (1940)

O Grande Ditador é mais do que um simples filme em que o espectador senta e assiste: é dos filmes que menos envelheceu com o passar dos anos, é relevante até hoje, é um grande pontapé para entender alguns conceitos como nazismo, fascismo, ditadura, autoritarismo, fanatismo político. E é uma obra prima incontestável do cinema.

É a maior bilheteria de um filme do grande Charlie Chaplin e dos mais conhecidos até hoje, sobretudo por suas cenas clássicas que mesmo quem nunca viu o filme se deparou com elas.

O filme é uma fábula, os nomes são inventados, mas é uma clara metáfora para o que acontecia no mundo na ocasião: em um país fictício em uma grande guerra, somos apresentados a um soldado que depois descobrimos que é um barbeiro e cujo nome nunca é revelado. O que vemos em tela é um soldado totalmente atrapalhado e que se feriu na guerra, ficou anos internado no hospital do exército e não viu a ascensão ao poder do ditador fascista Adenoid Hynkel (em uma clara referência a Adolf Hitler), até que ele retorna ao seu pequeno bairro e fica atordoado com as mudanças radicais.

O Chaplin faz praticamente tudo aqui no filme: tem 2 papéis como ator – o do barbeiro e do Hynkel – escreveu o roteiro, dirigiu e produziu. Este é o seu primeiro filme falado e embora ele tenha sido resistente com as mudanças que o cinema sofria, ele se adaptou bem e faz o seu melhor filme.

O Grande Ditador envelheceu muito bem e resistiu ao tempo, não apenas por seus ideais, mas pela sua produção também: em seu primeiro ato temos a batalha na grande guerra e coloca no chinelo muito CGI por aí. Depois somos transportados à história em si e tudo ainda está perfeito: desde a direção de arte do pequeno lugar ao palácio de Hynkel.

Foi um filme caro para a época, mas o resultado valeu a pena: é a maior bilheteria de um filme do Chaplin, arrecadando mais de 5 milhões de dólares.

Mas engana-se quem acha que o filme se resulte unicamente ao Chaplin. A personagem Hannah, vivida por Paulette Goddard – sua esposa na época – é uma mulher muito à frente de seu tempo: contra o patriarcado e que não leva desaforo para casa. E isso nos anos 1940.

E ainda tem o hilário Napaloni (Jack Oakie, ótimo no papel e em uma clara referência ao Mussolini), que rouba a cena em todas as suas tomadas, sobretudo com o conflito de egos com seu “amigo” Hynkel.

Mas o grande destaque mesmo é o Charlie Chaplin com seus dois papéis drasticamente diferentes onde houve um grande estudo de personagens, de caracterização, trejeitos em fazer o mais crível possível.

Aqui Chaplin se desvincula de seus tiques e da zona de conforto e faz seu papel mais dramático (ok, aqui e em Luzes da Ribalta). Aqui o vemos de fato em papéis de entrega e que o desafiaram.

Mas como esquecer de duas cenas clássicas? Uma delas é a que Hynkel brinca com o Globo Terrestre, cena exibida à exaustão e sendo até abertura de novela da Globo (alguém aí se lembra de O Dono do Mundo?)

Mas não tem jeito: o grande ápice é o desfecho com seu poderoso discurso final. O filme prepara todo o terreno para esta cena e o resultado é simplesmente um dos melhores (se não o melhor) monólogo que o cinema já viu e que vai ver.

O barbeiro é confundido com o ditador, que vai discursar e ao invés de falar em intolerância e guerra, fala sobre amor, paz, respeito e dos males da guerra. E a cereja do bolo é a declaração à sua amada Hannah no final.

Não importa se você já viu a cena ou sua ideologia: o discurso é algo sobrenatural até hoje e capaz de amolecer o mais duro dos corações.

O filme teve 5 indicações ao Oscar 1941: Melhor Filme, Ator, Ator Coadjuvante, Roteiro Original e Trilha Sonora. Absurdamente saiu de mãos vazias (como assim um roteiro desse não leva prêmio?) Isso mostra a covardia da Academia em não reconhecer uma obra muito à frente do seu tempo e que, acima de Oscar, molda caráter, gera debates e é relevante em qualquer era da história.

Quem diria que é a mesma instituição que, 80 anos depois, premiou um filme sul-coreano.

Nerd: Raphael Brito

Não importa se o filme, série, game, livro e hq são clássicos ou lançamentos, o que importa é apreciá-los. Todas as formas de cultura são válidas e um eterno apaixonado pela cultura pop.

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