O ano era 2013. A internet banda larga, youtube e redes sociais já estavam consolidados e uma empresa que se tornaria gigante também estava se firmando no Brasil e no mundo: Netflix, que de aluguel de DVDs, ficou mais conhecida no início da década por seu grande acervo de filmes, séries, além de acostumar seu público a “maratonar” suas séries, em detrimento ao tradicional modelo do episódio da semana nos canais de TV por assinatura.
Neste mesmo ano, muitos estranharam que a Netflix faria uma série própria e original: House of Cards surpreendeu a todos, foi um sucesso de público, crítica, muito premiada e embora o final tenha decepcionado (pois é!) e a série hoje tenha ficado mais conhecida pelos escândalos envolvendo o ator Kevin Spacey, não dá para ignorá-la: sem o sucesso de House of Cards, a Netflix, o streaming, a internet e o mundo, não seriam o que são hoje.

ORANGE IS THE NEW BLACK
E no mesmo ano de 2013, uma outra série original Netflix surgia, semanas depois de House of Cards e sem fazer muito barulho: Orange is the New Black, baseada no livro da Piper Kerman e criada por Jenji Kohan (também criadora de Weeds), que logo conquistou o coração dos fãs, também foi um grande sucesso de público, crítica e premiações e agora, 6 anos depois, chega à sua última temporada.
Pode não ser a melhor série original Netflix, mas, com certeza, é a mais consolidada. Foram 7 temporadas de muito sucesso, com muitos altos, poucos baixos e personagens que vão ficar no imaginário popular.
E em tempos que se discute o número de episódios das séries, Orange is the New Black não abriu mão de seus 13 episódios por temporada, o que faz muito sentido, sobretudo pelo seu enorme número de personagens e subtramas. Isso é mérito não apenas do roteiro, mas da montagem também, que se apresenta de forma fluida e impactante ao mesmo tempo.
Outra grande série, This is Us, também com um número alto de episódios por temporada – 18 episódios – também tem essas qualidades.
Esta temporada começa exatamente onde a anterior terminou: Piper cumpriu sua pena e agora precisa retomar a sua vida. Não bastasse a saudade e distância com Alex Vause, ela ainda tem que lidar com o preconceito da sociedade por ser ex-presidiária. A personagem Aleida também teve que lidar com isso em temporadas anteriores.
Tudo o que era bom nas outras temporadas volta melhorado aqui, seja os dramas das personagens, dilemas e os flashbacks, que são importantes não apenas para situar o espectador, mas para o público ter mais empatia com as personagens e não apenas tratar como “detentas” ou marginalizadas pela sociedade. Há uma vida lá.
Este é apenas um dos temas explosivos: nesta última temporada, também há espaço para discussões sobre imigração, xenofonia, relação abusiva (tanto entre as mulheres em si quanto entre os carcereiros), igualdade salarial entre homens e mulheres (e as guardas femininas têm mais espaço nisso), racismo, LGBTfobia, corrupção no sistema e a eterna discussão: será que é melhor punir ou educar? Bandido bom é bandido morto?
Também nota-se que as atrizes estão mais maduras agora em relação ao começa da série, principalmente a protagonista, Taylor Schilling, que interpreta Piper, Dascha Polanco, que faz a Daya (também vista na American Crime Story – Versace), Laura Prepon, a Alex Vause e a Natasha Lyonne, a Nicky, indicada ao Emmy pela série Boneca Russa.
Outro fator que fez com que Orange is the New Black terminasse a série de forma inteligente em detrimento a outras grandes séries que terminaram mal, como Game of Thrones, Lost, Dexter, How I Met Your Mother, House of Cards, entre outras: não teve pressa de terminar seus arcos e logo na segunda metade da temporada, a série já foi arquitetando o desfecho das personagens, chegando ao seu final sem incomodar o espectador e sem atropelar sua trama.
Não é exagero dizer que este é dos melhores finais de série.
Orange is the New Black se consolida como uma das melhores séries da atualidade e uma amostra de que dá para fazer um produto popular, feito com o coração, com críticas sociais, com um roteiro inteligente e que ainda, mudou paradigmas de como consumimos conteúdo.
De quantas séries podemos dizer o mesmo?




